CARTA ENCÍCLICA
CARITAS IN VERITATE
DO SUMO PONTÍFICE
BENTO XVI
AOS BISPOS
AOS PRESBÍTEROS E DIÁCONOS
ÀS PESSOAS CONSAGRADAS
AOS FIÉIS LEIGOS
E A TODOS OS HOMENS
DE BOA VONTADE
SOBRE O DESENVOLVIMENTO
HUMANO INTEGRAL
NA CARIDADE E NA VERDADE
INTRODUÇÃO
1. A caridade na
verdade, que Jesus Cristo testemunhou com a sua vida terrena e sobretudo com a
sua morte e ressurreição, é a força propulsora principal para o verdadeiro
desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira. O amor — « caritas
» — é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com
coragem e generosidade, no campo da justiça e da paz. É uma força que tem a sua
origem em Deus, Amor eterno e Verdade absoluta. Cada um encontra o bem próprio,
aderindo ao projecto que Deus tem para ele a fim de o realizar plenamente: com
efeito, é em tal projecto que encontra a verdade sobre si mesmo e, aderindo a
ela, torna-se livre (cf. Jo 8, 22). Por isso, defender a verdade,
propô-la com humildade e convicção e testemunhá-la na vida são formas exigentes
e imprescindíveis de caridade. Esta, de facto, « rejubila com a verdade » (1
Cor 13, 6). Todos os homens sentem o impulso interior para amar de maneira
autêntica: amor e verdade nunca desaparecem de todo neles, porque são a vocação
colocada por Deus no coração e na mente de cada homem. Jesus Cristo purifica e
liberta das nossas carências humanas a busca do amor e da verdade e
desvenda-nos, em plenitude, a iniciativa de amor e o projecto de vida verdadeira
que Deus preparou para nós. Em Cristo, a caridade na verdade torna-se o
Rosto da sua Pessoa, uma vocação a nós dirigida para amarmos os nossos irmãos na
verdade do seu projecto. De facto, Ele mesmo é a Verdade (cf. Jo 14, 6).
2. A caridade é a
via mestra da doutrina social da Igreja. As diversas responsabilidades e
compromissos por ela delineados derivam da caridade, que é — como ensinou Jesus
— a síntese de toda a Lei (cf. Mt 22, 36-40). A caridade dá verdadeira
substância à relação pessoal com Deus e com o próximo; é o princípio não só das
micro-relações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas
também das macro-relações como relacionamentos sociais, económicos, políticos.
Para a Igreja — instruída pelo Evangelho —, a caridade é tudo porque, como
ensina S. João (cf. 1 Jo 4, 8.16) e como recordei na minha primeira carta
encíclica, « Deus é caridade » (Deus caritas est): da caridade de Deus
tudo provém, por ela tudo toma forma, para ela tudo tende. A caridade é o
dom maior que Deus concedeu aos homens; é sua promessa e nossa esperança.
Estou ciente dos
desvios e esvaziamento de sentido que a caridade não cessa de enfrentar com o
risco, daí resultante, de ser mal entendida, de excluí-la da vida ética e, em
todo o caso, de impedir a sua correcta valorização. Nos âmbitos social,
jurídico, cultural, político e económico, ou seja, nos contextos mais expostos a
tal perigo, não é difícil ouvir declarar a sua irrelevância para interpretar e
orientar as responsabilidades morais. Daqui a necessidade de conjugar a caridade
com a verdade, não só na direcção assinalada por S. Paulo da « veritas in
caritate » (Ef 4, 15), mas também na direcção inversa e complementar
da « caritas in veritate ». A verdade há-de ser procurada, encontrada e
expressa na « economia » da caridade, mas esta por sua vez há-de ser
compreendida, avaliada e praticada sob a luz da verdade. Deste modo teremos não
apenas prestado um serviço à caridade, iluminada pela verdade, mas também
contribuído para acreditar a verdade, mostrando o seu poder de autenticação e
persuasão na vida social concreta. Facto este que se deve ter bem em conta hoje,
num contexto social e cultural que relativiza a verdade, aparecendo muitas vezes
negligente senão mesmo refractário à mesma.
3. Pela sua
estreita ligação com a verdade, a caridade pode ser reconhecida como expressão
autêntica de humanidade e como elemento de importância fundamental nas relações
humanas, nomeadamente de natureza pública. Só na verdade é que a caridade
refulge e pode ser autenticamente vivida. A verdade é luz que dá sentido e
valor à caridade. Esta luz é simultaneamente a luz da razão e a da fé, através
das quais a inteligência chega à verdade natural e sobrenatural da caridade:
identifica o seu significado de doação, acolhimento e comunhão. Sem verdade, a
caridade cai no sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, que se pode
encher arbitrariamente. É o risco fatal do amor numa cultura sem verdade; acaba
prisioneiro das emoções e opiniões contingentes dos indivíduos, uma palavra
abusada e adulterada chegando a significar o oposto do que é realmente. A
verdade liberta a caridade dos estrangulamentos do emotivismo, que a despoja de
conteúdos relacionais e sociais, e do fideísmo, que a priva de amplitude humana
e universal. Na verdade, a caridade reflecte a dimensão simultaneamente pessoal
e pública da fé no Deus bíblico, que é conjuntamente « Agápe » e «
Lógos »: Caridade e Verdade, Amor e Palavra.
4. Porque repleta
de verdade, a caridade pode ser compreendida pelo homem na sua riqueza de
valores, partilhada e comunicada. Com efeito, a verdade é « lógos » que cria
« diá-logos » e, consequentemente, comunicação e comunhão. A verdade,
fazendo sair os homens das opiniões e sensações subjectivas, permite-lhes
ultrapassar determinações culturais e históricas para se encontrarem na
avaliação do valor e substância das coisas. A verdade abre e une as
inteligências no lógos do amor: tal é o anúncio e o testemunho cristão da
caridade. No actual contexto social e cultural, em que aparece generalizada a
tendência de relativizar a verdade, viver a caridade na verdade leva a
compreender que a adesão aos valores do cristianismo é um elemento útil e mesmo
indispensável para a construção duma boa sociedade e dum verdadeiro
desenvolvimento humano integral. Um cristianismo de caridade sem verdade pode
ser facilmente confundido com uma reserva de bons sentimentos, úteis para a
convivência social mas marginais. Deste modo, deixaria de haver verdadeira e
propriamente lugar para Deus no mundo. Sem a verdade, a caridade acaba confinada
num âmbito restrito e carecido de relações; fica excluída dos projectos e
processos de construção dum desenvolvimento humano de alcance universal, no
diálogo entre o saber e a realização prática.
5. A caridade é
amor recebido e dado; é « graça » (cháris). A sua nascente é o amor
fontal do Pai pelo Filho no Espírito Santo. É amor que, pelo Filho, desce sobre
nós. É amor criador, pelo qual existimos; amor redentor, pelo qual somos
recriados. Amor revelado e vivido por Cristo (cf. Jo 13, 1), é «
derramado em nossos corações pelo Espírito Santo » (Rm 5, 5).
Destinatários do amor de Deus, os homens são constituídos sujeitos de caridade,
chamados a fazerem-se eles mesmos instrumentos da graça, para difundir a
caridade de Deus e tecer redes de caridade.
A esta dinâmica
de caridade recebida e dada, propõe-se dar resposta a doutrina social da Igreja.
Tal doutrina é « caritas in veritate in re sociali », ou seja, proclamação
da verdade do amor de Cristo na sociedade; é serviço da caridade, mas na
verdade. Esta preserva e exprime a força libertadora da caridade nas
vicissitudes sempre novas da história. É ao mesmo tempo verdade da fé e da
razão, na distinção e, conjuntamente, sinergia destes dois âmbitos cognitivos. O
desenvolvimento, o bem-estar social, uma solução adequada dos graves problemas
sócio-económicos que afligem a humanidade precisam desta verdade. Mais ainda,
necessitam que tal verdade seja amada e testemunhada. Sem verdade, sem confiança
e amor pelo que é verdadeiro, não há consciência e responsabilidade social, e a
actividade social acaba à mercê de interesses privados e lógicas de poder, com
efeitos desagregadores na sociedade, sobretudo numa sociedade em vias de
globalização que atravessa momentos difíceis como os actuais.
6. « Caritas
in veritate » é um princípio à volta do qual gira a doutrina social da
Igreja, princípio que ganha forma operativa em critérios orientadores da acção
moral. Destes, desejo lembrar dois em particular, requeridos especialmente pelo
compromisso em prol do desenvolvimento numa sociedade em vias de globalização:
a justiça e o bem comum.
Em primeiro
lugar, a justiça. Ubi societas, ibi ius: cada sociedade elabora um
sistema próprio de justiça. A caridade supera a justiça, porque amar é
dar, oferecer ao outro do que é « meu »; mas nunca existe sem a justiça, que
induz a dar ao outro o que é « dele », o que lhe pertence em razão do seu ser e
do seu agir. Não posso « dar » ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado
aquilo que lhe compete por justiça.
Quem ama os
outros com caridade é, antes de mais nada, justo para com eles. A justiça não só
não é alheia à caridade, não só não é um caminho alternativo ou paralelo à
caridade, mas é « inseparável da caridade »,1 é-lhe intrínseca.
A justiça
é o primeiro caminho da caridade ou, como chegou a dizer Paulo VI, « a medida
mínima » dela,2 parte integrante daquele amor « por acções e em
verdade » (1 Jo 3, 18) a que nos exorta o apóstolo João. Por um lado, a
caridade exige a justiça: o reconhecimento e o respeito dos legítimos direitos
dos indivíduos e dos povos. Aquela empenha-se na construção da « cidade do homem
» segundo o direito e a justiça. Por outro, a caridade supera a justiça e
completa-a com a lógica do dom e do perdão.3 A « cidade do homem »
não se move apenas por relações feitas de direitos e de deveres, mas antes e
sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão. A caridade
manifesta sempre, mesmo nas relações humanas, o amor de Deus; dá valor teologal
e salvífico a todo o empenho de justiça no mundo.
7. Depois, é
preciso ter em grande consideração o bem comum. Amar alguém é querer o
seu bem e trabalhar eficazmente pelo mesmo. Ao lado do bem individual, existe um
bem ligado à vida social das pessoas: o bem comum. É o bem daquele « nós-todos
», formado por indivíduos, famílias e grupos intermédios que se unem em
comunidade social.4 Não é um bem procurado por si mesmo, mas para as
pessoas que fazem parte da comunidade social e que, só nela, podem realmente e
com maior eficácia obter o próprio bem. Querer o bem comum e trabalhar
por ele é exigência de justiça e de caridade. Comprometer-se pelo bem
comum é, por um lado, cuidar e, por outro, valer-se daquele conjunto de
instituições que estruturam jurídica, civil, política e culturalmente a vida
social, que deste modo toma a forma de pólis, cidade. Ama-se tanto mais
eficazmente o próximo, quanto mais se trabalha em prol de um bem comum que dê
resposta também às suas necessidade reais. Todo o cristão é chamado a esta
caridade, conforme a sua vocação e segundo as possibilidades que tem de
incidência na pólis. Este é o caminho institucional — podemos mesmo dizer
político — da caridade, não menos qualificado e incisivo do que o é a caridade
que vai directamente ao encontro do próximo, fora das mediações institucionais
da pólis. Quando o empenho pelo bem comum é animado pela caridade, tem
uma valência superior à do empenho simplesmente secular e político. Aquele, como
todo o empenho pela justiça, inscreve-se no testemunho da caridade divina que,
agindo no tempo, prepara o eterno. A acção do homem sobre a terra, quando é
inspirada e sustentada pela caridade, contribui para a edificação daquela
cidade universal de Deus que é a meta para onde caminha a história da
família humana. Numa sociedade em vias de globalização, o bem comum e o empenho
em seu favor não podem deixar de assumir as dimensões da família humana inteira,
ou seja, da comunidade dos povos e das nações,5 para dar forma de
unidade e paz à cidade do homem e torná-la em certa medida antecipação
que prefigura a cidade de Deus sem barreiras.
8. Ao publicar a
encíclica Populorum progressio em 1967, o meu venerado predecessor Paulo
VI iluminou o grande tema do desenvolvimento dos povos com o esplendor da
verdade e com a luz suave da caridade de Cristo. Afirmou que o anúncio de Cristo
é o primeiro e principal factor de desenvolvimento 6 e deixou-nos a
recomendação de caminhar pela estrada do desenvolvimento com todo o nosso
coração e com toda a nossa inteligência,7 ou seja, com o ardor da
caridade e a sapiência da verdade. É a verdade originária do amor de Deus —
graça a nós concedida — que abre ao dom a nossa vida e torna possível esperar
num « desenvolvimento do homem todo e de todos os homens »,8 numa
passagem « de condições menos humanas a condições mais humanas »,9
que se obtém vencendo as dificuldades que inevitavelmente se encontram ao longo
do caminho.
Passados mais de
quarenta anos da publicação da referida encíclica, pretendo prestar homenagem e
honrar a memória do grande Pontífice Paulo VI, retomando os seus ensinamentos
sobre o desenvolvimento humano integral e colocando-me na senda pelos
mesmos traçada para os actualizar nos dias que correm. Este processo de
actualização teve início com a encíclica Sollicitudo rei socialis do
Servo de Deus João Paulo II, que desse modo quis comemorar a Populorum
progressio no vigésimo aniversário da sua publicação. Até então, semelhante
comemoração tinha-se reservado apenas para a Rerum novarum. Passados
outros vinte anos, exprimo a minha convicção de que a Populorum progressio
merece ser considerada como « a Rerum novarum da época contemporânea »,
que ilumina o caminho da humanidade em vias de unificação.
9. O amor na
verdade — caritas in veritate — é um grande desafio para a Igreja num
mundo em crescente e incisiva globalização. O risco do nosso tempo é que, à real
interdependência dos homens e dos povos, não corresponda a interacção ética das
consciências e das inteligências, da qual possa resultar um desenvolvimento
verdadeiramente humano. Só através da caridade, iluminada pela luz da razão e
da fé, é possível alcançar objectivos de desenvolvimento dotados de uma
valência mais humana e humanizadora. A partilha dos bens e recursos, da qual
deriva o autêntico desenvolvimento, não é assegurada pelo simples progresso
técnico e por meras relações de conveniência, mas pelo potencial de amor que
vence o mal com o bem (cf. Rm 12, 21) e abre à reciprocidade das
consciências e das liberdades.
A Igreja não tem
soluções técnicas para oferecer 10 e não pretende « de modo algum
imiscuir-se na política dos Estados »; 11 mas tem uma missão ao
serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo e contingência, a favor de uma
sociedade à medida do homem, da sua dignidade, da sua vocação. Sem verdade,
cai-se numa visão empirista e céptica da vida, incapaz de se elevar acima da
acção porque não está interessada em identificar os valores — às vezes nem
sequer os significados — pelos quais julgá-la e orientá-la. A fidelidade ao
homem exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de
liberdade (cf. Jo 8, 32) e da possibilidade dum desenvolvimento
humano integral. É por isso que a Igreja a procura, anuncia incansavelmente
e reconhece em todo o lado onde a mesma se apresente. Para a Igreja, esta missão
ao serviço da verdade é irrenunciável. A sua doutrina social é um momento
singular deste anúncio: é serviço à verdade que liberta. Aberta à verdade,
qualquer que seja o saber donde provenha, a doutrina social da Igreja acolhe-a,
compõe numa unidade os fragmentos em que frequentemente a encontra, e serve-lhe
de medianeira na vida sempre nova da sociedade dos homens e dos povos.12
CAPÍTULO I
A MENSAGEM
DA POPULORUM PROGRESSIO
10. A releitura
da Populorum progressio, mais de quarenta anos depois da sua publicação,
incita a permanecer fiéis à sua mensagem de caridade e de verdade,
considerando-a no âmbito do magistério específico de Paulo VI e, mais em geral,
dentro da tradição da doutrina social da Igreja. Depois há que avaliar os termos
diferentes em que hoje, diversamente de então, se coloca o problema do
desenvolvimento. Por isso, o ponto de vista correcto é o da Tradição da fé
apostólica,13 património antigo e novo, fora do qual a
Populorum progressio seria um documento sem raízes e as questões do
desenvolvimento ficariam reduzidas unicamente a dados sociológicos.
11. A publicação
da Populorum progressio deu-se imediatamente depois da conclusão do
Concílio Ecuménico Vaticano II. A própria encíclica sublinha, nos primeiros
parágrafos, a sua relação íntima com o Concílio.14 Vinte anos depois,
era João Paulo II que destacava, na Sollicitudo rei socialis, a fecunda
relação daquela encíclica com o Concílio, particularmente com a constituição
pastoral Gaudium et spes.15 Desejo, também eu, lembrar aqui a
importância que o Concílio Vaticano II teve na encíclica de Paulo VI e em todo o
sucessivo magistério social dos Sumos Pontífices. O Concílio aprofundou aquilo
que desde sempre pertence à verdade da fé, ou seja, que a Igreja, estando ao
serviço de Deus, serve o mundo em termos de amor e verdade. Foi precisamente
desta perspectiva que partiu Paulo VI para nos comunicar duas grandes verdades.
A primeira é que a Igreja inteira, em todo o seu ser e agir, quando anuncia,
celebra e actua na caridade, tende a promover o desenvolvimento integral do
homem. Ela tem um papel público que não se esgota nas suas actividades de
assistência ou de educação, mas revela todas as suas energias ao serviço da
promoção do homem e da fraternidade universal quando pode usufruir de um regime
de liberdade. Em não poucos casos, tal liberdade vê-se impedida por proibições e
perseguições; ou então é limitada, quando a presença pública da Igreja fica
reduzida unicamente às suas actividades sócio-caritativas. A segunda verdade é
que o autêntico desenvolvimento do homem diz respeito unitariamente à
totalidade da pessoa em todas as suas dimensões.16 Sem a
perspectiva duma vida eterna, o progresso humano neste mundo fica privado de
respiro. Fechado dentro da história, está sujeito ao risco de reduzir-se a
simples incremento do ter; deste modo, a humanidade perde a coragem de
permanecer disponível para os bens mais altos, para as grandes e altruístas
iniciativas solicitadas pela caridade universal. O homem não se desenvolve
apenas com as suas próprias forças, nem o desenvolvimento é algo que se lhe
possa dar simplesmente de fora. Muitas vezes, ao longo da história, pensou-se
que era suficiente a criação de instituições para garantir à humanidade a
satisfação do direito ao desenvolvimento. Infelizmente foi depositada excessiva
confiança em tais instituições, como se estas pudessem conseguir automaticamente
o objectivo desejado. Na realidade, as instituições sozinhas não bastam, porque
o desenvolvimento humano integral é primariamente vocação e, por conseguinte,
exige uma livre e solidária assunção de responsabilidade por parte de todos.
Além disso, tal desenvolvimento requer uma visão transcendente da pessoa, tem
necessidade de Deus: sem Ele, o desenvolvimento ou é negado ou acaba confiado
unicamente às mãos do homem, que cai na presunção da auto-salvação e acaba por
fomentar um desenvolvimento desumanizado. Aliás, só o encontro com Deus permite
deixar de « ver no outro sempre e apenas o outro »,17 para reconhecer
nele a imagem divina, chegando assim a descobrir verdadeiramente o outro e a
maturar um amor que « se torna cuidado do outro e pelo outro ».18
12. A ligação
entre a Populorum progressio e o Concílio Vaticano II não representa um
corte entre o magistério social de Paulo VI e o dos Pontífices seus
predecessores, visto que o Concílio constitui um aprofundamento de tal
magistério na continuidade da vida da Igreja.19 Neste sentido, não
ajudam à clareza certas subdivisões abstractas da doutrina social da Igreja, que
aplicam ao ensinamento social pontifício categorias que lhe são alheias. Não
existem duas tipologias de doutrina social — uma pré-conciliar e outra
pós-conciliar —, diversas entre si, mas um único ensinamento, coerente e
simultaneamente sempre novo.20 É justo evidenciar a peculiaridade
de uma ou outra encíclica, do ensinamento deste ou daquele Pontífice, mas sem
jamais perder de vista a coerência do corpus doutrinal inteiro.21
Coerência não significa reclusão num sistema, mas sobretudo fidelidade dinâmica
a uma luz recebida. A doutrina social da Igreja ilumina, com uma luz imutável,
os problemas novos que vão aparecendo.22 Isto salvaguarda o carácter
quer permanente quer histórico deste « património » doutrinal,23 o
qual, com as suas características específicas, faz parte da Tradição sempre viva
da Igreja.24 A doutrina social está construída sobre o fundamento que
foi transmitido pelos Apóstolos aos Padres da Igreja e, depois, acolhido e
aprofundado pelos grandes Doutores cristãos. Tal doutrina remonta, em última
análise, ao Homem novo, ao « último Adão que Se tornou espírito vivificante » (1
Cor 15, 45) e é princípio da caridade que « nunca acabará » (1 Cor
13, 8). É testemunhada pelos Santos e por quantos deram a vida por Cristo
Salvador no campo da justiça e da paz. Nela se exprime a missão profética que
têm os Sumos Pontífices de guiar apostolicamente a Igreja de Cristo e discernir
as novas exigências da evangelização. Por estas razões, a Populorum
progressio, inserida na grande corrente da Tradição, é capaz de nos falar
ainda a nós hoje.
13. Além da sua
importante ligação com toda a doutrina social da Igreja, a Populorum
progressio está intimamente conexa com o magistério global de Paulo VI e, de
modo particular, com o seu magistério social. De grande relevo foi, sem dúvida,
o seu ensinamento social: reafirmou a exigência imprescindível do Evangelho para
a construção da sociedade segundo liberdade e justiça, na perspectiva ideal e
histórica de uma civilização animada pelo amor. Paulo VI compreendeu claramente
como se tinha tornado mundial a questão social25 e viu a correlação
entre o impulso à unificação da humanidade e o ideal cristão de uma única
família dos povos, solidária na fraternidade comum. Indicou o
desenvolvimento, humana e cristãmente entendido, como o coração da mensagem
social cristã e propôs a caridade cristã como principal força ao serviço do
desenvolvimento. Movido pelo desejo de tornar o amor de Cristo plenamente
visível ao homem contemporâneo, Paulo VI enfrentou com firmeza importantes
questões éticas, sem ceder às debilidades culturais do seu tempo.
14. Depois, com a
carta apostólica Octogesima adveniens de 1971, Paulo VI tratou o tema do
sentido da política e do perigo de visões utópicas e ideológicas que
prejudicavam a sua qualidade ética e humana. São argumentos estritamente
relacionados com o desenvolvimento. Infelizmente as ideologias negativas
florescem continuamente. Contra a ideologia tecnocrática, hoje particularmente
radicada, já Paulo VI tinha alertado,26 ciente do grande perigo que
era confiar todo o processo do desenvolvimento unicamente à técnica, porque
assim ficaria sem orientação. A técnica, em si mesma, é ambivalente. Se, por um
lado, há hoje quem seja propenso a confiar-lhe inteiramente tal processo de
desenvolvimento, por outro, assiste-se à investida de ideologias que negam in
toto a própria utilidade do desenvolvimento, considerado radicalmente
anti-humano e portador somente de degradação. Mas, deste modo, acaba-se por
condenar não apenas a maneira errada e injusta como por vezes os homens orientam
o progresso, mas também as descobertas científicas que entretanto, se bem
usadas, constituem uma oportunidade de crescimento para todos. A ideia de um
mundo sem desenvolvimento exprime falta de confiança no homem e em Deus. Por
conseguinte, é um grave erro desprezar as capacidades humanas de controlar os
extravios do desenvolvimento ou mesmo ignorar que o homem está constitutivamente
inclinado para « ser mais ». Absolutizar ideologicamente o progresso técnico ou
então afagar a utopia duma humanidade reconduzida ao estado originário da
natureza são dois modos opostos de separar o progresso da sua apreciação moral
e, consequentemente, da nossa responsabilidade.
15. Outros dois
documentos de Paulo VI, embora não estritamente ligados com a doutrina social —
a encíclica Humanæ vitæ, de 25 de Julho de 1968, e a exortação apostólica
Evangelium nuntiandi, de 8 de Dezembro de 1975 —, são muito importantes para
delinear o sentido plenamente humano do desenvolvimento proposto pela Igreja.
Por
isso é oportuno ler também estes textos em relação com a Populorum progressio.
A encíclica
Humanæ vitæ sublinha o significado conjuntamente unitivo e procriativo da
sexualidade, pondo assim como fundamento da sociedade o casal de esposos, homem
e mulher, que se acolhem reciprocamente na distinção e na complementaridade; um
casal, portanto, aberto à vida.27 Não se trata de uma moral meramente
individual: a Humanæ vitæ indica os fortes laços existentes entre
ética da vida e ética social, inaugurando uma temática do Magistério que aos
poucos foi tomando corpo em vários documentos, sendo o mais recente a encíclica
Evangelium vitæ de João Paulo II.28 A Igreja propõe, com
vigor, esta ligação entre ética da vida e ética social, ciente de que não pode «
ter sólidas bases uma sociedade que afirma valores como a dignidade da pessoa, a
justiça e a paz, mas contradiz-se radicalmente aceitando e tolerando as mais
diversas formas de desprezo e violação da vida humana, sobretudo se débil e
marginalizada ».29
Por sua vez, a
exortação apostólica Evangelium nuntiandi tem uma relação muito forte com
o desenvolvimento, visto que « a evangelização — escrevia Paulo VI — não seria
completa, se não tomasse em consideração a interpelação recíproca que se fazem
constantemente o Evangelho e a vida concreta, pessoal e social, do homem ».30
« Entre evangelização e promoção humana — desenvolvimento, libertação — existem
de facto laços profundos »:31 partindo desta certeza, Paulo VI
ilustrava claramente a relação entre o anúncio de Cristo e a promoção da pessoa
na sociedade. O testemunho da caridade de Cristo através de obras de justiça,
paz e desenvolvimento faz parte da evangelização, pois a Jesus Cristo, que
nos ama, interessa o homem inteiro. Sobre estes importantes ensinamentos, está
fundado o aspecto missionário 32 da doutrina social da Igreja como
elemento essencial de evangelização.33 A doutrina social da Igreja é
anúncio e testemunho de fé; é instrumento e lugar imprescindível de educação
para a mesma.
16. Na
Populorum progressio, Paulo VI quis dizer-nos, antes de mais nada, que o
progresso é, na sua origem e na sua essência, uma vocação: « Nos
desígnios de Deus, cada homem é chamado a desenvolver-se, porque toda a vida é
vocação ».34 É precisamente este facto que legitima a intervenção da
Igreja nas problemáticas do desenvolvimento. Se este tocasse apenas aspectos
técnicos da vida do homem, e não o sentido do seu caminhar na história
juntamente com seus irmãos, nem a individuação da meta de tal caminho, a Igreja
não teria título para falar. Mas Paulo VI, como antes dele Leão XIII na Rerum
novarum,35 estava consciente de cumprir um dever próprio do seu
serviço quando iluminava com a luz do Evangelho as questões sociais do seu
tempo.36
Dizer que o
desenvolvimento é vocação equivale a reconhecer, por um lado, que o mesmo
nasce de um apelo transcendente e, por outro, que é incapaz por si mesmo de
atribuir-se o próprio significado último. Não é sem motivo que a palavra «
vocação » volta a aparecer noutra passagem da encíclica, onde se afirma: « Não
há, portanto, verdadeiro humanismo senão o aberto ao Absoluto, reconhecendo uma
vocação que exprime a ideia exacta do que é a vida humana ».37 Esta
visão do desenvolvimento é o coração da Populorum progressio e motiva
todas as reflexões de Paulo VI sobre a liberdade, a verdade e a caridade no
desenvolvimento. É também a razão principal por que tal encíclica ainda aparece
actual nos nossos dias.
17. A vocação é
um apelo que exige resposta livre e responsável. O desenvolvimento humano
integral supõe a liberdade responsável da pessoa e dos povos: nenhuma
estrutura pode garantir tal desenvolvimento, prescindindo e sobrepondo-se à
responsabilidade humana. Os « messianismos fascinantes, mas construtores de
ilusões »38 fundam sempre as próprias propostas na negação da
dimensão transcendente do desenvolvimento, seguros de o terem inteiramente à sua
disposição. Esta falsa segurança converte-se em fraqueza, porque implica a
sujeição do homem, reduzido à categoria de meio para o desenvolvimento, enquanto
a humildade de quem acolhe uma vocação se transforma em verdadeira autonomia,
porque torna a pessoa livre. Paulo VI não tem dúvidas sobre a existência de
obstáculos e condicionamentos que refreiam o desenvolvimento, mas está seguro
também de que « cada um, sejam quais forem as influências que sobre ele se
exerçam, permanece o artífice principal do seu êxito ou do seu fracasso ».39
Esta liberdade diz respeito não só ao desenvolvimento que usufruímos, mas também
às situações de subdesenvolvimento, que não são fruto do acaso nem de uma
necessidade histórica, mas dependem da responsabilidade humana. É por isso que «
os povos da fome se dirigem hoje, de modo dramático, aos povos da opulência ».40
Também isto é vocação, um apelo que homens livres dirigem a homens livres em
ordem a uma assunção comum de responsabilidade. Viva era, em Paulo VI, a
percepção da importância das estruturas económicas e das instituições, mas era
igualmente clara nele a noção da sua natureza de instrumentos da liberdade
humana. Somente se for livre é que o desenvolvimento pode ser integralmente
humano; apenas num regime de liberdade responsável, pode crescer de maneira
adequada.
18. Além de
requerer a liberdade, o desenvolvimento humano integral enquanto vocação
exige também que se respeite a sua verdade. A vocação ao progresso impele os
homens a « realizar, conhecer e possuir mais, para ser mais ».41 Mas
aqui levanta-se o problema: que significa « ser mais »? A tal pergunta responde
Paulo VI indicando a característica essencial do « desenvolvimento autêntico »:
este « deve ser integral, quer dizer, promover todos os homens e o homem todo ».42
Na concorrência entre as várias concepções do homem, presentes na sociedade
actual ainda mais intensamente do que na de Paulo VI, a visão cristã tem a
peculiaridade de afirmar e justificar o valor incondicional da pessoa humana e o
sentido do seu crescimento. A vocação cristã ao desenvolvimento ajuda a
empenhar-se na promoção de todos os homens e do homem todo. Escrevia Paulo VI: «
O que conta para nós é o homem, cada homem, cada grupo de homens, até se chegar
à humanidade inteira ».43 A fé cristã ocupa-se do desenvolvimento sem
olhar a privilégios nem posições de poder nem mesmo aos méritos dos cristãos —
que sem dúvida existiram e existem, a par de naturais limitações44 —,
mas contando apenas com Cristo, a Quem há-de fazer referência toda a autêntica
vocação ao desenvolvimento humano integral. O Evangelho é elemento
fundamental do desenvolvimento, porque lá Cristo, com « a própria revelação
do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo ».45
Instruída pelo seu Senhor, a Igreja perscruta os sinais dos tempos e
interpreta-os, oferecendo ao mundo « o que possui como próprio: uma visão global
do homem e da humanidade ».46 Precisamente porque Deus pronuncia o
maior « sim » ao homem,47 este não pode deixar de se abrir à vocação
divina para realizar o próprio desenvolvimento. A verdade do desenvolvimento
consiste na sua integralidade: se não é desenvolvimento do homem todo e de todo
o homem, não é verdadeiro desenvolvimento. Esta é a mensagem central da
Populorum progressio, válida hoje e sempre. O desenvolvimento humano
integral no plano natural, enquanto resposta a uma vocação de Deus criador,48
procura a própria autenticação num « humanismo transcendente, que leva [o homem]
a atingir a sua maior plenitude: tal é a finalidade suprema do desenvolvimento
pessoal ».49 Portanto, a vocação cristã a tal desenvolvimento
compreende tanto o plano natural como o plano sobrenatural, motivo por que, «
quando Deus fica eclipsado, começa a esmorecer a nossa capacidade de reconhecer
a ordem natural, o fim e o ‘‘bem'' ».50
19. Finalmente, a
concepção do desenvolvimento como vocação inclui nele a centralidade da
caridade. Paulo VI observava, na encíclica Populorum progressio, que
as causas do subdesenvolvimento não são primariamente de ordem material,
convidando-nos a procurá-las noutras dimensões do homem. Em primeiro lugar, na
vontade, que muitas vezes descuida os deveres da solidariedade. Em segundo, no
pensamento, que nem sempre sabe orientar convenientemente o querer; por isso,
para a prossecução do desenvolvimento, servem « pensadores capazes de reflexão
profunda, em busca de um humanismo novo, que permita ao homem moderno o encontro
de si mesmo ».51 E não é tudo; o subdesenvolvimento tem uma causa
ainda mais importante do que a carência de pensamento: é « a falta de
fraternidade entre os homens e entre os povos ».52 Esta fraternidade
poderá um dia ser obtida pelos homens simplesmente com as suas forças? A
sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos.
A razão, por si só, é capaz de ver a igualdade entre os homens e estabelecer uma
convivência cívica entre eles, mas não consegue fundar a fraternidade. Esta tem
origem numa vocação transcendente de Deus Pai, que nos amou primeiro,
ensinando-nos por meio do Filho o que é a caridade fraterna. Ao apresentar os
vários níveis do processo de desenvolvimento do homem, Paulo VI colocava no
vértice, depois de ter mencionado a fé, « a unidade na caridade de Cristo que
nos chama a todos a participar como filhos na vida do Deus vivo, Pai de todos os
homens ».53
20. Abertas pela
Populorum progressio, estas perspectivas permanecem fundamentais para dar
amplitude e orientação ao nosso compromisso a favor do desenvolvimento dos
povos. E a Populorum progressio sublinha repetidamente a urgência das
reformas,54 pedindo para que, à vista dos grandes problemas da
injustiça no desenvolvimento dos povos, se actue com coragem e sem demora. Esta
urgência é ditada também pela caridade na verdade. É a caridade de Cristo
que nos impele: « caritas Christi urget nos » (2 Cor 5, 14). A
urgência não está inscrita só nas coisas, não deriva apenas do encalçar dos
acontecimentos e dos problemas, mas também do que está em jogo: a realização de
uma autêntica fraternidade. A relevância deste objectivo é tal que exige a nossa
disponibilidade para o compreendermos profundamente e mobilizarmo-nos
concretamente, com o « coração », a fim de fazer avançar os actuais processos
económicos e sociais para metas plenamente humanas.
CAPÍTULO II
O DESENVOLVIMENTO HUMANO
NO NOSSO TEMPO
21. Paulo VI
tinha uma visão articulada do desenvolvimento. Com o termo «
desenvolvimento », queria indicar, antes de mais nada, o objectivo de fazer sair
os povos da fome, da miséria, das doenças endémicas e do analfabetismo. Isto
significava, do ponto de vista económico, a sua participação activa e em
condições de igualdade no processo económico internacional; do ponto de vista
social, a sua evolução para sociedades instruídas e solidárias; do ponto de
vista político, a consolidação de regimes democráticos capazes de assegurar a
liberdade e a paz. Depois de tantos anos e enquanto contemplamos, preocupados,
as evoluções e as perspectivas das crises que foram sucedendo neste período,
interrogamo-nos até que ponto as expectativas de Paulo VI tenham sido
satisfeitas pelo modelo de desenvolvimento que foi adoptado nos últimos
decénios. E reconhecemos que eram fundadas as preocupações da Igreja acerca das
capacidades do homem meramente tecnológico conseguir impor-se objectivos
realistas e saber gerir, sempre adequadamente, os instrumentos à sua disposição.
O lucro é útil se, como meio, for orientado para um fim que lhe indique o
sentido e o modo como o produzir e utilizar. O objectivo exclusivo de lucro,
quando mal produzido e sem ter como fim último o bem comum, arrisca-se a
destruir riqueza e criar pobreza. O desenvolvimento económico desejado por Paulo
VI devia ser capaz de produzir um crescimento real, extensivo a todos e
concretamente sustentável. É verdade que o desenvolvimento foi e continua a ser
um factor positivo, que tirou da miséria milhões de pessoas e, ultimamente, deu
a muitos países a possibilidade de se tornarem actores eficazes da política
internacional. Todavia há que reconhecer que o próprio desenvolvimento económico
foi e continua a ser molestado por anomalias e problemas dramáticos,
evidenciados ainda mais pela actual situação de crise. Esta coloca-nos
improrrogavelmente diante de opções que dizem respeito sempre mais ao próprio
destino do homem, o qual aliás não pode prescindir da sua natureza. As forças
técnicas em campo, as inter-relações a nível mundial, os efeitos deletérios
sobre a economia real duma actividade financeira mal utilizada e
maioritariamente especulativa, os imponentes fluxos migratórios, com frequência
provocados e depois não geridos adequadamente, a exploração desregrada dos
recursos da terra, induzem-nos hoje a reflectir sobre as medidas necessárias
para dar solução a problemas que são não apenas novos relativamente aos
enfrentados pelo Papa Paulo VI, mas também e sobretudo com impacto decisivo no
bem presente e futuro da humanidade. Os aspectos da crise e das suas soluções
bem como de um possível novo desenvolvimento futuro estão cada vez mais
interdependentes, implicam-se reciprocamente, requerem novos esforços de
enquadramento global e uma nova síntese humanista. A complexidade e
gravidade da situação económica actual preocupa-nos, com toda a justiça, mas
devemos assumir com realismo, confiança e esperança as novas responsabilidades a
que nos chama o cenário de um mundo que tem necessidade duma renovação cultural
profunda e da redescoberta de valores fundamentais para construir sobre eles um
futuro melhor. A crise obriga-nos a projectar de novo o nosso caminho, a
impor-nos regras novas e encontrar novas formas de empenhamento, a apostar em
experiências positivas e rejeitar as negativas. Assim, a crise torna-se
ocasião de discernimento e elaboração de nova planificação. Com esta chave,
feita mais de confiança que resignação, convém enfrentar as dificuldades da hora
actual.
22. Actualmente o
quadro do desenvolvimento é policêntrico. Os actores e as causas tanto do
subdesenvolvimento como do desenvolvimento são múltiplas, as culpas e os méritos
são diferenciados. Este dado deveria induzir a libertar-se das ideologias que
simplificam, de forma frequentemente artificiosa, a realidade, e levar a
examinar com objectividade a espessura humana dos problemas. Hoje a linha de
demarcação entre países ricos e pobres já não é tão nítida como nos tempos da
Populorum progressio, como aliás foi assinalado por João Paulo II.55
Cresce a riqueza mundial em termos absolutos, mas aumentam as desigualdades.
Nos países ricos, novas categorias sociais empobrecem e nascem novas pobrezas.
Em áreas mais pobres, alguns grupos gozam duma espécie de superdesenvolvimento
dissipador e consumista que contrasta, de modo inadmissível, com perduráveis
situações de miséria desumanizadora. Continua « o escândalo de desproporções
revoltantes ».56 Infelizmente a corrupção e a ilegalidade estão
presentes tanto no comportamento de sujeitos económicos e políticos dos países
ricos, antigos e novos, como nos próprios países pobres. No número de quantos
não respeitam os direitos humanos dos trabalhadores, contam-se às vezes grandes
empresas transnacionais e também grupos de produção local. As ajudas
internacionais foram muitas vezes desviadas das suas finalidades, por
irresponsabilidades que se escondem tanto na cadeia dos sujeitos doadores como
na dos beneficiários. Também no âmbito das causas imateriais ou culturais do
desenvolvimento e do subdesenvolvimento podemos encontrar a mesma articulação de
responsabilidades: existem formas excessivas de protecção do conhecimento por
parte dos países ricos, através duma utilização demasiado rígida do direito de
propriedade intelectual, especialmente no campo sanitário; ao mesmo tempo, em
alguns países pobres, persistem modelos culturais e normas sociais de
comportamento que retardam o processo de desenvolvimento.
23. Temos hoje
muitas áreas do globo que — de forma por vezes problemática e não homogénea —
evoluíram, entrando na categoria das grandes potências destinadas a jogar um
papel importante no futuro. Contudo há que sublinhar que não é suficiente
progredir do ponto de vista económico e tecnológico; é preciso que o
desenvolvimento seja, antes de mais nada, verdadeiro e integral. A saída do
atraso económico — um dado em si mesmo positivo — não resolve a complexa
problemática da promoção do homem nem nos países protagonistas de tais avanços,
nem nos países economicamente já desenvolvidos, nem nos países ainda pobres que,
além das antigas formas de exploração, podem vir a sofrer também as
consequências negativas derivadas de um crescimento marcado por desvios e
desequilíbrios.
Depois da queda
dos sistemas económicos e políticos dos países comunistas da Europa Oriental e
do fim dos chamados « blocos contrapostos », havia necessidade duma revisão
global do desenvolvimento. Pedira-o João Paulo II, que em 1987 tinha indicado a
existência destes « blocos » como uma das principais causas do
subdesenvolvimento,57 enquanto a política subtraía recursos à
economia e à cultura e a ideologia inibia a liberdade. Em 1991, na sequência dos
acontecimentos do ano 1989, o Pontífice pediu que o fim dos « blocos » fosse
seguido por uma nova planificação global do desenvolvimento, não só em tais
países, mas também no Ocidente e nas regiões do mundo que estavam a evoluir.58
Isto, porém, realizou-se apenas parcialmente, continuando a ser uma obrigação
real que precisa de ser satisfeita, talvez aproveitando-se precisamente das
opções necessárias para superar os problemas económicos actuais.
24. O mundo, que
Paulo VI tinha diante dos olhos, registava muito menor integração do que hoje,
embora o processo de sociabilização se apresentasse já tão adiantado que ele
pôde falar de uma questão social tornada mundial. Actividade económica e função
política desenrolavam-se em grande parte dentro do mesmo âmbito local e, por
conseguinte, podiam inspirar recíproca confiança. A actividade produtiva tinha
lugar prevalentemente dentro das fronteiras nacionais e os investimentos
financeiros tinham uma circulação bastante limitada para o estrangeiro, de tal
modo que a política de muitos Estados podia ainda fixar as prioridades da
economia e, de alguma maneira, governar o seu andamento com os instrumentos de
que ainda dispunha. Por este motivo, a Populorum progressio atribuía um
papel central, embora não exclusivo, aos « poderes públicos ».59
Actualmente, o
Estado encontra-se na situação de ter de enfrentar as limitações que lhe são
impostas à sua soberania pelo novo contexto económico comercial e financeiro
internacional, caracterizado nomeadamente por uma crescente mobilidade dos
capitais financeiros e dos meios de produção materiais e imateriais. Este novo
contexto alterou o poder político dos Estados.
Hoje,
aproveitando inclusivamente a lição resultante da crise económica em curso que
vê os poderes públicos do Estado directamente empenhados a corrigir erros
e disfunções, parece mais realista uma renovada avaliação do seu papel e
poder, que hão-de ser sapientemente reconsiderados e reavaliados para se
tornarem capazes, mesmo através de novas modalidades de exercício, de fazer
frente aos desafios do mundo actual. Com uma função melhor calibrada dos poderes
públicos, é previsível que sejam reforçadas as novas formas de participação na
política nacional e internacional que se realizam através da acção das
organizações operantes na sociedade civil; nesta linha, é desejável que cresçam
uma atenção e uma participação mais sentidas na res publica por parte dos
cidadãos.
25. Do ponto de
vista social, os sistemas de segurança e previdência — já presentes em muitos
países nos tempos de Paulo VI — sentem dificuldade, e poderão senti-la ainda
mais no futuro, em alcançar os seus objectivos de verdadeira justiça social
dentro de um quadro de forças profundamente alterado. O mercado, à medida que se
foi tornando global, estimulou antes de mais nada, por parte de países ricos, a
busca de áreas para onde deslocar as actividades produtivas a baixo custo a fim
de reduzir os preços de muitos bens, aumentar o poder de compra e deste modo
acelerar o índice de desenvolvimento centrado sobre um maior consumo pelo
próprio mercado interno. Consequentemente, o mercado motivou novas formas de
competição entre Estados procurando atrair centros produtivos de empresas
estrangeiras através de variados instrumentos tais como impostos favoráveis e a
desregulamentação do mundo do trabalho. Estes processos implicaram a redução
das redes de segurança social em troca de maiores vantagens competitivas no
mercado global, acarretando grave perigo para os direitos dos trabalhadores, os
direitos fundamentais do homem e a solidariedade actuada nas formas tradicionais
do Estado social. Os sistemas de segurança social podem perder a capacidade de
desempenhar a sua função, quer nos países emergentes, quer nos desenvolvidos há
mais tempo, quer naturalmente nos países pobres. Aqui, as políticas relativas ao
orçamento com os seus cortes na despesa social, muitas vezes fomentados pelas
próprias instituições financeiras internacionais, podem deixar os cidadãos
impotentes diante de riscos antigos e novos; e tal impotência torna-se ainda
maior devido à falta de protecção eficaz por parte das associações dos
trabalhadores. O conjunto das mudanças sociais e económicas faz com que as
organizações sindicais sintam maiores dificuldades no desempenho do seu
dever de representar os interesses dos trabalhadores, inclusive pelo facto de os
governos, por razões de utilidade económica, muitas vezes limitarem as
liberdades sindicais ou a capacidade negociadora dos próprios sindicatos. Assim,
as redes tradicionais de solidariedade encontram obstáculos cada vez maiores a
superar. Por isso, o convite feito pela doutrina social da Igreja, a começar da
Rerum novarum,60 para se criarem associações de trabalhadores
em defesa dos seus direitos há-de ser honrado, hoje ainda mais do que ontem,
dando antes de mais nada uma resposta pronta e clarividente à urgência de
instaurar novas sinergias a nível internacional, sem descurar o nível local.
A mobilidade
laboral, associada à generalizada desregulamentação, constituiu um fenómeno
importante, não desprovido de aspectos positivos porque capaz de estimular a
produção de nova riqueza e o intercâmbio entre culturas diversas. Todavia,
quando se torna endémica a incerteza sobre as condições de trabalho, resultante
dos processos de mobilidade e desregulamentação, geram-se formas de
instabilidade psicológica, com dificuldade a construir percursos coerentes na
própria vida, incluindo o percurso rumo ao matrimónio. Consequência disto é o
aparecimento de situações de degradação humana, além de desperdício de força
social. Comparado com o que sucedia na sociedade industrial do passado, hoje o
desemprego provoca aspectos novos de irrelevância económica do indivíduo, e a
crise actual pode apenas piorar tal situação. A exclusão do trabalho por muito
tempo ou então uma prolongada dependência da assistência pública ou privada
corroem a liberdade e a criatividade da pessoa e as suas relações familiares e
sociais, causando enormes sofrimentos a nível psicológico e espiritual. Queria
recordar a todos, sobretudo aos governantes que estão empenhados a dar um perfil
renovado aos sistemas económicos e sociais do mundo, que o primeiro capital a
preservar e valorizar é o homem, a pessoa, na sua integridade: « com efeito,
o homem é o protagonista, o centro e o fim de toda a vida económico-social ».61
26. No plano
cultural, as diferenças, relativamente aos tempos de Paulo VI, são ainda mais
acentuadas. Então, as culturas apresentavam-se bastante bem definidas e tinham
maiores possibilidades para se defender das tentativas de homogeneização
cultural. Hoje, cresceram notavelmente as possibilidades de interacção das
culturas, dando espaço a novas perspectivas de diálogo intercultural; um
diálogo que, para ser eficaz, deve ter como ponto de partida uma profunda noção
da específica identidade dos vários interlocutores. No entanto, não se deve
descurar o facto de que esta aumentada transacção de intercâmbios culturais traz
consigo, actualmente, um duplo perigo. Em primeiro lugar, nota-se um
ecletismo cultural assumido muitas vezes sem discernimento: as culturas são
simplesmente postas lado a lado e vistas como substancialmente equivalentes e
intercambiáveis umas com as outras. Isto favorece a cedência a um relativismo
que não ajuda ao verdadeiro diálogo intercultural; no plano social, o
relativismo cultural faz com que os grupos culturais se juntem ou convivam, mas
separados, sem autêntico diálogo e, consequentemente, sem verdadeira integração.
Depois, temos o perigo oposto que é constituído pelo nivelamento cultural
e a homogeneização dos comportamentos e estilos de vida. Assim perde-se o
significado profundo da cultura das diversas nações, das tradições dos vários
povos, no âmbito das quais a pessoa se confronta com as questões fundamentais da
existência.62 Ecletismo e nivelamento cultural convergem no facto de
separar a cultura da natureza humana. Assim, as culturas deixam de saber
encontrar a sua medida numa natureza que as transcende,63 acabando
por reduzir o homem a simples dado cultural. Quando isto acontece, a humanidade
corre novos perigos de servidão e manipulação.
27. Em muitos
países pobres, continua — com risco de aumentar — uma insegurança extrema de
vida, que deriva da carência de alimentação: a fome ceifa ainda inúmeras
vítimas entre os muitos Lázaros, a quem não é permitido — como esperara Paulo VI
— sentar-se à mesa do rico avarento.64 Dar de comer aos famintos
(cf. Mt 25, 35.37.42) é um imperativo ético para toda a Igreja, que é
resposta aos ensinamentos de solidariedade e partilha do seu Fundador, o Senhor
Jesus. Além disso, eliminar a fome no mundo tornou-se, na era da globalização,
também um objectivo a alcançar para preservar a paz e a subsistência da terra. A
fome não depende tanto de uma escassez material, como sobretudo da escassez de
recursos sociais, o mais importante dos quais é de natureza institucional; isto
é, falta um sistema de instituições económicas que seja capaz de garantir um
acesso regular e adequado, do ponto de vista nutricional, à alimentação e à água
e também de enfrentar as carências relacionadas com as necessidades primárias e
com a emergência de reais e verdadeiras crises alimentares provocadas por causas
naturais ou pela irresponsabilidade política nacional e internacional. O
problema da insegurança alimentar há-de ser enfrentado numa perspectiva a longo
prazo, eliminando as causas estruturais que o provocam e promovendo o
desenvolvimento agrícola dos países mais pobres por meio de investimentos em
infra-estruturas rurais, sistemas de irrigação, transportes, organização dos
mercados, formação e difusão de técnicas agrícolas apropriadas, isto é, capazes
de utilizar o melhor possível os recursos humanos, naturais e sócio-económicos
mais acessíveis a nível local, para garantir a sua manutenção a longo prazo.
Tudo isto há-de ser realizado, envolvendo as comunidades locais nas opções e nas
decisões relativas ao uso da terra cultivável. Nesta perspectiva, poderia
revelar-se útil considerar as novas fronteiras abertas por um correcto emprego
das técnicas de produção agrícola, tanto as tradicionais como as inovadoras,
desde que as mesmas tenham sido, depois de adequada verificação, reconhecidas
oportunas, respeitadoras do ambiente e tendo em conta as populações mais
desfavorecidas. Ao mesmo tempo não deveria ser transcurada a questão de uma
equitativa reforma agrária nos países em vias de desenvolvimento. Os direitos à
alimentação e à água revestem um papel importante para a consecução de outros
direitos, a começar pelo direito primário à vida. Por isso, é necessário a
maturação duma consciência solidária que considere a alimentação e o acesso à
água como direitos universais de todos os seres humanos, sem distinções nem
discriminações.65 Além disso, é importante pôr em evidência que o
caminho da solidariedade com o desenvolvimento dos países pobres pode constituir
um projecto de solução para a presente crise global, como homens políticos e
responsáveis de instituições internacionais têm intuído nos últimos tempos.
Sustentando, através de planos de financiamento inspirados pela solidariedade,
os países economicamente pobres, para que provejam eles mesmos à satisfação das
solicitações de bens de consumo e de desenvolvimento dos próprios cidadãos, é
possível não apenas gerar verdadeiro crescimento económico mas também concorrer
para sustentar as capacidades produtivas dos países ricos que correm o risco de
ficar comprometidas pela crise.
28. Um dos
aspectos mais evidentes do desenvolvimento actual é a importância do tema do
respeito pela vida, que não pode ser de modo algum separado das questões
relativas ao desenvolvimento dos povos. Trata-se de um aspecto que, nos últimos
tempos, está a assumir uma relevância sempre maior, obrigando-nos a alargar os
conceitos de pobreza 66 e subdesenvolvimento às questões relacionadas
com o acolhimento da vida, sobretudo onde o mesmo é de várias maneiras impedido.
Não só a situação
de pobreza provoca ainda altas taxas de mortalidade infantil em muitas regiões,
mas perduram também, em várias partes do mundo, práticas de controle demográfico
por parte dos governos, que muitas vezes difundem a contracepção e chegam mesmo
a impor o aborto. Nos países economicamente mais desenvolvidos, são muito
difusas as legislações contrárias à vida, condicionando já o costume e a práxis
e contribuindo para divulgar uma mentalidade antinatalista que muitas vezes se
procura transmitir a outros Estados como se fosse um progresso cultural.
Também algumas
organizações não governamentais trabalham activamente pela difusão do aborto,
promovendo nos países pobres a adopção da prática da esterilização, mesmo sem as
mulheres o saberem. Além disso, há a fundada suspeita de que às vezes as
próprias ajudas ao desenvolvimento sejam associadas com determinadas políticas
sanitárias que realmente implicam a imposição de um forte controle dos
nascimentos. Igualmente preocupantes são as legislações que prevêem a eutanásia
e as pressões de grupos nacionais e internacionais que reivindicam o seu
reconhecimento jurídico.
A abertura à vida
está no centro do verdadeiro desenvolvimento.
Quando uma sociedade começa a negar e a suprimir a vida, acaba por deixar de
encontrar as motivações e energias necessárias para trabalhar ao serviço do
verdadeiro bem do homem. Se se perde a sensibilidade pessoal e social ao
acolhimento duma nova vida, definham também outras formas de acolhimento úteis à
vida social.67 O acolhimento da vida revigora as energias morais e
torna-nos capazes de ajuda recíproca. Os povos ricos, cultivando a abertura à
vida, podem compreender melhor as necessidades dos países pobres, evitar o
emprego de enormes recursos económicos e intelectuais para satisfazer desejos
egoístas dos próprios cidadãos e promover, ao invés, acções virtuosas na
perspectiva duma produção moralmente sadia e solidária, no respeito do direito
fundamental de cada povo e de cada pessoa à vida.
29. Outro aspecto
da vida actual, intimamente relacionado com o desenvolvimento, é a negação do
direito à liberdade religiosa. Não me refiro só às lutas e conflitos que
ainda se disputam no mundo por motivações religiosas, embora estas às vezes
sejam apenas a cobertura para razões de outro género, tais como a sede de
domínio e de riqueza. Na realidade, com frequência hoje se faz apelo ao santo
nome de Deus para matar, como diversas vezes foi sublinhado e deplorado
publicamente pelo meu predecessor João Paulo II e por mim próprio.68
As violências refreiam o desenvolvimento autêntico e impedem a evolução dos
povos para um bem-estar sócio-económico e espiritual maior. Isto aplica-se de
modo especial ao terrorismo de índole fundamentalista,69 que gera
sofrimento, devastação e morte, bloqueia o diálogo entre as nações e desvia
grandes recursos do seu uso pacífico e civil. Mas há que acrescentar que, se o
fanatismo religioso impede em alguns contextos o exercício do direito de
liberdade de religião, também a promoção programada da indiferença religiosa ou
do ateísmo prático por parte de muitos países contrasta com as necessidades do
desenvolvimento dos povos, subtraindo-lhes recursos espirituais e humanos. Deus
é o garante do verdadeiro desenvolvimento do homem, já que, tendo-o
criado à sua imagem, fundamenta de igual forma a sua dignidade transcendente e
alimenta o seu anseio constitutivo de « ser mais ». O homem não é um átomo
perdido num universo casual,70 mas é uma criatura de Deus, à qual
quis dar uma alma imortal e que desde sempre amou. Se o homem fosse fruto apenas
do acaso ou da necessidade, se as suas aspirações tivessem de reduzir-se ao
horizonte restrito das situações em que vive, se tudo fosse somente história e
cultura e o homem não tivesse uma natureza destinada a transcender-se numa vida
sobrenatural, então poder-se-ia falar de incremento ou de evolução, mas não de
desenvolvimento. Quando o Estado promove, ensina ou até impõe formas de ateísmo
prático, tira aos seus cidadãos a força moral e espiritual indispensável para se
empenhar no desenvolvimento humano integral e impede-os de avançarem com
renovado dinamismo no próprio compromisso de uma resposta humana mais generosa
ao amor divino.71 Sucede também que os países economicamente
desenvolvidos ou os emergentes exportem para os países pobres, no âmbito das
suas relações culturais, comerciais e políticas, esta visão redutiva da pessoa e
do seu destino. É o dano que o « superdesenvolvimento » 72 acarreta
ao desenvolvimento autêntico, quando é acompanhado pelo « subdesenvolvimento
moral ».73
30. Nesta linha,
o tema do desenvolvimento humano integral atinge um ponto ainda mais complexo: a
correlação entre os seus vários elementos requer que nos empenhemos por fazer
interagir os diversos níveis do saber humano tendo em vista a promoção de um
verdadeiro desenvolvimento dos povos. Muitas vezes pensa-se que o
desenvolvimento ou as relativas medidas sócio-económicas necessitam apenas de
ser postos em prática como fruto de um agir comum, ignorando que este agir comum
precisa de ser orientado, porque « toda a acção social implica uma doutrina ».74
Vista a complexidade dos problemas, é óbvio que as várias disciplinas devem
colaborar através de uma ordenada interdisciplinaridade. A caridade não exclui o
saber, antes reclama-o, promove-o e anima-o a partir de dentro. O saber nunca é
obra apenas da inteligência; pode, sem dúvida, ser reduzido a cálculo e a experiência, mas se quer ser sapiência capaz de orientar o homem à luz dos
princípios primeiros e dos seus fins últimos, deve ser « temperado » com o « sal
» da caridade. A acção é cega sem o saber, e este é estéril sem o amor. De
facto, « aquele que está animado de verdadeira caridade é engenhoso em descobrir
as causas da miséria, encontrar os meios de a combater e vencê-la resolutamente
».75 Relativamente aos fenómenos que analisamos, a caridade na
verdade requer, antes de mais nada, conhecer e compreender no respeito
consciencioso da competência específica de cada nível do saber. A caridade não é
uma junção posterior, como se fosse um apêndice ao trabalho já concluído das
várias disciplinas, mas dialoga com elas desde o início. As exigências do amor
não contradizem as da razão. O saber humano é insuficiente e as conclusões das
ciências não poderão sozinhas indicar o caminho para o desenvolvimento integral
do homem. Sempre é preciso lançar-se mais além: exige-o a caridade na verdade.76
Todavia ir mais além nunca significa prescindir das conclusões da razão, nem
contradizer os seus resultados. Não aparece a inteligência e depois o amor: há
o amor rico de inteligência e a inteligência cheia de amor.
31. Isto
significa que as ponderações morais e a pesquisa científica devem crescer juntas
e que a caridade as deve animar num todo interdisciplinar harmónico, feito de
unidade e distinção. A doutrina social da Igreja, que tem « uma importante
dimensão interdisciplinar »,77 pode desempenhar, nesta
perspectiva, uma função de extraordinária eficácia. Ela permite à fé, à
teologia, à metafísica e às ciências encontrarem o próprio lugar no âmbito de
uma colaboração ao serviço do homem; é sobretudo aqui que a doutrina social da
Igreja actua a sua dimensão sapiencial. Paulo VI tinha visto claramente que,
entre as causas do subdesenvolvimento, conta-se uma carência de sabedoria, de
reflexão, de pensamento capaz de realizar uma síntese orientadora,78
que requer « uma visão clara de todos os aspectos económicos, sociais, culturais
e espirituais ».79 A excessiva fragmentação do saber,80 o
isolamento das ciências humanas relativamente à metafísica,81 as
dificuldades no diálogo entre as ciências e a teologia danificam não só o avanço
do saber mas também o desenvolvimento dos povos, porque, quando isso se
verifica, fica obstaculizada a visão do bem completo do homem nas várias
dimensões que o caracterizam. É indispensável o « alargamento do nosso conceito
de razão e do uso da mesma » 82 para se conseguir sopesar
adequadamente todos os termos da questão do desenvolvimento e da solução dos
problemas sócio-económicos.
32. As grandes
novidades, que o quadro actual do desenvolvimento dos povos apresenta, exigem em
muitos casos novas soluções. Estas hão-de ser procuradas conjuntamente no
respeito das leis próprias de cada realidade e à luz duma visão integral do
homem, que espelhe os vários aspectos da pessoa humana, contemplada com o olhar
purificado pela caridade. Descobrir-se-ão então singulares convergências e
concretas possibilidades de solução, sem renunciar a qualquer componente
fundamental da vida humana.
A dignidade da
pessoa e as exigências da justiça requerem, sobretudo hoje, que as opções
económicas não façam aumentar, de forma excessiva e moralmente inaceitável, as
diferenças de riqueza 83 e que se continue a perseguir como
prioritário o objectivo do acesso ao trabalho para todos, ou da sua
manutenção. Bem vistas as coisas, isto é exigido também pela « razão económica
». O aumento sistemático das desigualdades entre grupos sociais no interior de
um mesmo país e entre as populações dos diversos países, ou seja, o aumento
maciço da pobreza em sentido relativo, tende não só a minar a coesão social — e,
por este caminho, põe em risco a democracia —, mas tem também um impacto
negativo no plano económico com a progressiva corrosão do « capital social »,
isto é, daquele conjunto de relações de confiança, de credibilidade, de respeito
das regras, indispensáveis em qualquer convivência civil.
E é ainda a
ciência económica a dizer-nos que uma situação estrutural de insegurança gera
comportamentos antiprodutivos e de desperdício de recursos humanos, já que o
trabalhador tende a adaptar-se passivamente aos mecanismos automáticos, em vez
de dar largas à criatividade. Também neste ponto se verifica uma convergência
entre ciência económica e ponderação moral. Os custos humanos são sempre
também custos económicos, e as disfunções económicas acarretam sempre também
custos humanos.
Há ainda que
recordar que o nivelamento das culturas à dimensão tecnológica, se a curto prazo
pode favorecer a obtenção de lucros, a longo prazo dificulta o enriquecimento
recíproco e as dinâmicas de cooperação. É importante distinguir entre
considerações económicas ou sociológicas a curto prazo e a longo prazo. A
diminuição do nível de tutela dos direitos dos trabalhadores ou a renúncia a
mecanismos de redistribuição do rendimento, para fazer o país ganhar maior
competitividade internacional, impede a afirmação de um desenvolvimento de longa
duração. Por isso, há que avaliar atentamente as consequências que podem ter
sobre as pessoas as tendência actuais para uma economia a curto senão mesmo
curtíssimo prazo. Isto requer uma nova e profunda reflexão sobre o sentido da
economia e dos seus fins,84 bem como uma revisão profunda e
clarividente do modelo de desenvolvimento, para se corrigirem as suas disfunções
e desvios. Na realidade, exige-o o estado de saúde ecológica da terra; pede-o
sobretudo a crise cultural e moral do homem, cujos sintomas são evidentes por
toda a parte.
33. Passados mais
de quarenta anos da publicação da Populorum progressio, o seu tema de
fundo — precisamente o progresso — permanece ainda um problema em aberto,
que se tornou mais agudo e premente com a crise económico-financeira em curso.
Se algumas áreas do globo, outrora oprimidas pela pobreza, registaram mudanças
notáveis em termos de crescimento económico e de participação na produção
mundial, há outras zonas que vivem ainda numa situação de miséria comparável à
existente nos tempos de Paulo VI; antes, em qualquer caso pode-se mesmo falar de
agravamento. É significativo que algumas causas desta situação tivessem sido já
identificadas na Populorum progressio, como, por exemplo, as altas
tarifas aduaneiras impostas pelos países economicamente desenvolvidos que ainda
impedem aos produtos originários dos países pobres de chegar aos mercados dos
países ricos. Entretanto, outras causas que a encíclica tinha apenas
pressentido, apareceram depois com maior evidência; é o caso da avaliação do
processo de descolonização, então em pleno curso. Paulo VI almejava um percurso
de autonomia que havia de realizar-se na liberdade e na paz; quarenta anos
depois, temos de reconhecer como foi difícil tal percurso, tanto por causa de
novas formas de colonialismo e dependência de antigos e novos países
hegemónicos, como por graves irresponsabilidades internas aos próprios países
que se tornaram independentes.
A novidade
principal foi a explosão da interdependência mundial, já conhecida
comummente por globalização. Paulo VI tinha-a em parte previsto, mas os termos e
a impetuosidade com que aquela evoluiu são surpreendentes. Nascido no âmbito dos
países economicamente desenvolvidos, este processo por sua própria natureza
causou um envolvimento de todas as economias. Foi o motor principal para a saída
do subdesenvolvimento de regiões inteiras e, por si mesmo, constitui uma grande
oportunidade. Contudo, sem a guia da caridade na verdade, este ímpeto mundial
pode concorrer para criar riscos de danos até agora desconhecidos e de novas
divisões na família humana. Por isso, a caridade e a verdade colocam diante de
nós um compromisso inédito e criativo, sem dúvida muito vasto e complexo.
Trata-se de dilatar a razão e torná-la capaz de conhecer e orientar estas
novas e imponentes dinâmicas, animando-as na perspectiva daquela «
civilização do amor », cuja semente Deus colocou em todo o povo e cultura.
CAPÍTULO III
FRATERNIDADE,
DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO
E SOCIEDADE CIVIL
34. A
caridade na verdade
coloca o homem perante a admirável experiência do dom. A gratuidade está
presente na sua vida sob múltiplas formas, que frequentemente lhe passam
despercebidas por causa duma visão meramente produtiva e utilarista da
existência. O ser humano está feito para o dom, que exprime e realiza a sua
dimensão de transcendência. Por vezes o homem moderno convence-se, erroneamente,
de que é o único autor de si mesmo, da sua vida e da sociedade. Trata-se de uma
presunção, resultante do encerramento egoísta em si mesmo, que provém — se
queremos exprimi-lo em termos de fé — do pecado das origens. Na sua
sabedoria, a Igreja sempre propôs que se tivesse em conta o pecado original
mesmo na interpretação dos fenómenos sociais e na construção da sociedade. «
Ignorar que o homem tem uma natureza ferida, inclinada para o mal, dá lugar a
graves erros no domínio da educação, da política, da acção social e dos costumes
».85 No elenco dos campos onde se manifestam os efeitos perniciosos
do pecado, há muito tempo que se acrescentou também o da economia. Temos uma
prova evidente disto mesmo nos dias que correm. Primeiro, a convicção de ser
auto-suficiente e de conseguir eliminar o mal presente na história apenas com a
própria acção induziu o homem a identificar a felicidade e a salvação com formas
imanentes de bem-estar material e de acção social. Depois, a convicção da
exigência de autonomia para a economia, que não deve aceitar « influências » de
carácter moral, impeliu o homem a abusar dos instrumentos económicos até mesmo
de forma destrutiva. Com o passar do tempo, estas convicções levaram a sistemas
económicos, sociais e políticos que espezinharam a liberdade da pessoa e dos
corpos sociais e, por isso mesmo, não foram capazes de assegurar a justiça que
prometiam. Deste modo, como afirmei na encíclica Spe salvi,86
elimina-se da história a esperança cristã, a qual, ao invés, constitui um
poderoso recurso social ao serviço do desenvolvimento humano integral, procurado
na liberdade e na justiça. A esperança encoraja a razão e dá-lhe a força para
orientar a vontade.87 Já está presente na fé, pela qual aliás é
suscitada. Dela se nutre a caridade na verdade e, ao mesmo tempo, manifesta-a.
Sendo dom de Deus absolutamente gratuito, irrompe na nossa vida como algo não
devido, que transcende qualquer norma de justiça. Por sua natureza, o dom
ultrapassa o mérito; a sua regra é a excedência. Aquele precede-nos, na nossa
própria alma, como sinal da presença de Deus em nós e das suas expectativas a
nosso respeito. A verdade, que é dom tal como a caridade, é maior do que nós,
conforme ensina Santo Agostinho.88 Também a verdade acerca de nós
mesmos, da nossa consciência pessoal é-nos primariamente « dada »; com efeito,
em qualquer processo cognoscitivo, a verdade não é produzida por nós, mas sempre
encontrada ou, melhor, recebida. Tal como o amor, ela « não nasce da
inteligência e da vontade, mas de certa forma impõe-se ao ser humano ».89
Enquanto dom
recebido por todos, a caridade na verdade é uma força que constitui a
comunidade, unifica os homens segundo modalidades que não conhecem barreiras nem
confins. A comunidade dos homens pode ser constituída por nós mesmos; mas, com
as nossas simples forças, nunca poderá ser uma comunidade plenamente fraterna
nem alargada para além de qualquer fronteira, ou seja, não poderá tornar-se uma
comunidade verdadeiramente universal: a unidade do género humano, uma comunhão
fraterna para além de qualquer divisão, nasce da convocação da palavra de
Deus-Amor. Ao enfrentar esta questão decisiva, devemos especificar, por um lado,
que a lógica do dom não exclui a justiça nem se justapõe a ela num segundo tempo
e de fora; e, por outro, que o desenvolvimento económico, social e político
precisa, se quiser ser autenticamente humano, de dar espaço ao princípio da
gratuidade como expressão de fraternidade.
35. O mercado,
se houver confiança recíproca e generalizada, é a instituição económica que
permite o encontro entre as pessoas, na sua dimensão de operadores económicos
que usam o contrato como regra das suas relações e que trocam bens e serviços
entre si fungíveis, para satisfazer as suas carências e desejos. O mercado está
sujeito aos princípios da chamada justiça comutativa, que regula
precisamente as relações do dar e receber entre sujeitos iguais. Mas a doutrina
social nunca deixou de pôr em evidência a importância que tem a justiça
distributiva e a justiça social para a própria economia de mercado,
não só porque integrada nas malhas de um contexto social e político mais vasto,
mas também pela teia das relações em que se realiza. De facto, deixado
unicamente ao princípio da equivalência de valor dos bens trocados, o mercado
não consegue gerar a coesão social de que necessita para bem funcionar. Sem
formas internas de solidariedade e de confiança recíproca, o mercado não pode
cumprir plenamente a própria função económica. E, hoje, foi precisamente
esta confiança que veio a faltar; e a perda da confiança é uma perda grave.
Na Populorum
progressio, Paulo VI sublinhava oportunamente o facto de que seria o próprio
sistema económico a tirar vantagem da prática generalizada da justiça, uma vez
que os primeiros a beneficiar do desenvolvimento dos países pobres teriam sido
os países ricos.90 Não se tratava apenas de corrigir disfunções,
através da assistência. Os pobres não devem ser considerados um « fardo »91
mas um recurso, mesmo do ponto de vista estritamente económico. Há que
considerar errada a visão de quantos pensam que a economia de mercado tenha
estruturalmente necessidade duma certa quota de pobreza e subdesenvolvimento
para poder funcionar do melhor modo. O mercado tem interesse em promover
emancipação, mas, para o fazer verdadeiramente, não pode contar apenas consigo
mesmo, porque não é capaz de produzir por si aquilo que está para além das suas
possibilidades; tem de haurir energias morais de outros sujeitos, que sejam
capazes de as gerar.
36. A actividade
económica não pode resolver todos os problemas sociais através da simples
extensão da lógica mercantil. Esta há-de ter como finalidade a
prossecução do bem comum, do qual se deve ocupar também e sobretudo a
comunidade política. Por isso, tenha-se presente que é causa de graves
desequilíbrios separar o agir económico — ao qual competiria apenas produzir
riqueza — do agir político, cuja função seria buscar a justiça através da
redistribuição.
Desde sempre a
Igreja defende que não se há-de considerar o agir económico como anti-social. De
per si o mercado não é, nem se deve tornar, o lugar da prepotência do forte
sobre o débil. A sociedade não tem que se proteger do mercado, como se o
desenvolvimento deste implicasse ipso facto a morte das relações
autenticamente humanas. É verdade que o mercado pode ser orientado de modo
negativo, não porque isso esteja na sua natureza, mas porque uma certa ideologia
pode dirigi-lo em tal sentido. Não se deve esquecer que o mercado, em estado
puro, não existe; mas toma forma a partir das configurações culturais que o
especificam e orientam. Com efeito, a economia e as finanças, enquanto
instrumentos, podem ser mal utilizadas se quem as gere tiver apenas referimentos
egoístas. Deste modo é possível conseguir transformar instrumentos de per si
bons em instrumentos danosos; mas é a razão obscurecida do homem que produz
estas consequências, não o instrumento por si mesmo. Por isso, não é o
instrumento que deve ser chamado em causa, mas o homem, a sua consciência moral
e a sua responsabilidade pessoal e social.
A doutrina social
da Igreja considera possível viver relações autenticamente humanas de amizade e
camaradagem, de solidariedade e reciprocidade, mesmo no âmbito da actividade
económica e não apenas fora dela ou « depois » dela. A área económica não é nem
eticamente neutra nem de natureza desumana e anti-social. Pertence à actividade
do homem; e, precisamente porque humana, deve ser eticamente estruturada e
institucionalizada.
O grande desafio
que temos diante de nós — resultante das problemáticas do desenvolvimento neste
tempo de globalização, mas revestindo-se de maior exigência com a crise
económico-financeira — é mostrar, a nível tanto de pensamento como de
comportamentos, que não só não podem ser transcurados ou atenuados os princípios
tradicionais da ética social, como a transparência, a honestidade e a
responsabilidade, mas também que, nas relações comerciais, o princípio
de gratuidade e a lógica do dom como expressão da fraternidade podem e devem
encontrar lugar dentro da actividade económica normal. Isto é uma exigência
do homem no tempo actual, mas também da própria razão económica. Trata-se de uma
exigência simultaneamente da caridade e da verdade.
37. A doutrina
social da Igreja sempre defendeu que a justiça diz respeito a todas as fases
da actividade económica, porque esta sempre tem a ver com o homem e com as
suas exigências. A angariação dos recursos, os financiamentos, a produção, o
consumo e todas as outras fases do ciclo económico têm inevitavelmente
implicações morais. Deste modo cada decisão económica tem consequências de
carácter moral. Tudo isto encontra confirmação também nas ciências sociais e
nas tendências da economia actual. Outrora talvez se pudesse pensar, primeiro,
em confiar à economia a produção de riqueza para, depois, atribuir à política a
tarefa de a distribuir; hoje tudo isto se apresenta mais difícil, porque,
enquanto as actividades económicas deixaram de estar circunscritas no âmbito dos
limites territoriais, a autoridade dos governos continua a ser sobretudo local.
Por isso, os cânones da justiça devem ser respeitados desde o início enquanto se
desenrola o processo económico, e não depois ou marginalmente. Além disso, é
preciso que, no mercado, se abram espaços para actividades económicas realizadas
por sujeitos que livremente escolhem configurar o próprio agir segundo
princípios diversos do puro lucro, sem por isso renunciar a produzir valor
económico. As numerosas expressões de economia que tiveram origem em iniciativas
religiosas e laicas demonstram que isto é concretamente possível.
Na época da
globalização, a economia denota a influência de modelos competitivos ligados a
culturas muito diversas entre si. Os comportamentos económico-empresariais daí
resultantes possuem, na sua maioria, um ponto de encontro no respeito da justiça
comutativa. A vida económica tem, sem dúvida, necessidade do contrato,
para regular as relações de transacção entre valores equivalentes; mas precisa
igualmente de leis justas e de formas de redistribuição guiadas
pela política, para além de obras que tragam impresso o espírito do dom.
A economia globalizada parece privilegiar a primeira lógica, ou seja, a da
transacção contratual, mas directa ou indirectamente dá provas de necessitar também das outras duas: a lógica política e a lógica do dom sem contrapartidas.
38. O meu
antecessor João Paulo II sublinhara esta problemática, quando, na Centesimus
annus, destacou a necessidade de um sistema com três sujeitos: o mercado,
o Estado e a sociedade civil.92 Ele tinha identificado
na sociedade civil o âmbito mais apropriado para uma economia da gratuidade
e da fraternidade, mas sem pretender negá-la nos outros dois âmbitos. Hoje,
podemos dizer que a vida económica deve ser entendida como uma realidade com
várias dimensões: em todas deve estar presente, embora em medida diversa e com
modalidades específicas, o aspecto da reciprocidade fraterna. Na época da
globalização, a actividade económica não pode prescindir da gratuidade, que
difunde e alimenta a solidariedade e a responsabilidade pela justiça e o bem
comum em seus diversos sujeitos e actores. Trata-se, em última análise, de uma
forma concreta e profunda de democracia económica. A solidariedade consiste
primariamente em que todos se sintam responsáveis por todos93 e, por
conseguinte, não pode ser delegada só no Estado. Se, no passado, era possível
pensar que havia necessidade primeiro de procurar a justiça e que a gratuidade
intervinha depois como um complemento, hoje é preciso afirmar que, sem a
gratuidade, não se consegue sequer realizar a justiça. Assim, temos necessidade
de um mercado, no qual possam operar, livremente e em condições de igual
oportunidade, empresas que persigam fins institucionais diversos. Ao lado da
empresa privada orientada para o lucro e dos vários tipos de empresa pública,
devem poder-se radicar e exprimir as organizações produtivas que perseguem fins
mutualistas e sociais. Do seu recíproco confronto no mercado, pode-se esperar
uma espécie de hibridização dos comportamentos de empresa e, consequentemente,
uma atenção sensível à civilização da economia. Neste caso, caridade na
verdade significa que é preciso dar forma e organização àquelas iniciativas
económicas que, embora sem negar o lucro, pretendam ir mais além da lógica da
troca de equivalentes e do lucro como fim em si mesmo.
39. Na
Populorum progressio, Paulo VI pedia que se configurasse um modelo de
economia de mercado capaz de incluir, pelo menos intencionalmente, todos os
povos e não apenas aqueles adequadamente habilitados. Solicitava que nos
empenhássemos na promoção de um mundo mais humano para todos, um mundo no qual «
todos tenham qualquer coisa a dar e a receber, sem que o progresso de uns seja
obstáculo ao desenvolvimento dos outros ».94 Estendia assim ao plano
universal as mesmas instâncias e aspirações contidas na Rerum novarum,
escrita quando pela primeira vez, em consequência da revolução industrial, se
afirmou a ideia — seguramente avançada para aquele tempo — de que a ordem civil,
para subsistir, tinha necessidade também da intervenção distributiva do Estado.
Hoje esta visão, além de ser posta em crise pelos processos de abertura dos
mercados e das sociedades, revela-se incompleta para satisfazer as exigências
duma economia plenamente humana. Aquilo que a doutrina social da Igreja,
partindo da sua visão do homem e da sociedade, sempre defendeu, é hoje requerido
também pelas dinâmicas características da globalização.
Quando a lógica
do mercado e a do Estado se põem de acordo entre si para continuar no monopólio
dos respectivos âmbitos de influência, com o passar do tempo definha a
solidariedade nas relações entre os cidadãos, a participação e a adesão, o
serviço gratuito, que são realidades diversas do « dar para ter », próprio da
lógica da transacção, e do « dar por dever », próprio da lógica dos
comportamentos públicos impostos por lei do Estado. A vitória sobre o
subdesenvolvimento exige que se actue não só sobre a melhoria das transacções
fundadas sobre o intercâmbio, nem apenas sobre as transferências das estruturas
assistenciais de natureza pública, mas sobretudo sobre a progressiva
abertura, em contexto mundial, para formas de actividade económica
caracterizadas por quotas de gratuidade e de comunhão. O binómio exclusivo
mercado-Estado corrói a sociabilidade, enquanto as formas económicas solidárias,
que encontram o seu melhor terreno na sociedade civil sem contudo se reduzir a
ela, criam sociabilidade. O mercado da gratuidade não existe, tal como não se
podem estabelecer por lei comportamentos gratuitos, e todavia tanto o mercado
como a política precisam de pessoas abertas ao dom recíproco.
40. As actuais
dinâmicas económicas internacionais, caracterizadas por graves desvios e
disfunções, requerem profundas mudanças inclusivamente no modo de conceber a
empresa. Antigas modalidades da vida empresarial declinam, mas outras
prometedoras se esboçam no horizonte. Um dos riscos maiores é, sem dúvida, que a
empresa preste contas quase exclusivamente a quem nela investe, acabando assim
por reduzir a sua valência social. Devido ao seu crescimento de dimensão e à
necessidade de capitais sempre maiores, são cada vez menos as empresas que fazem
referimento a um empresário estável que se sinta responsável não apenas a curto
mas a longo prazo da vida e dos resultados da sua empresa, tal como diminui o
número das que dependem de um único território. Além disso, a chamada
deslocalização da actividade produtiva pode atenuar no empresário o sentido da
responsabilidade para com os interessados, como os trabalhadores, os
fornecedores, os consumidores, o ambiente natural e a sociedade circundante mais
ampla, em benefício dos accionistas, que não estão ligados a um espaço
específico, gozando por isso duma extraordinária mobilidade; de facto, o mercado
internacional dos capitais oferece hoje uma grande liberdade de acção. Mas é
verdade também que está a aumentar a consciência sobre a necessidade de uma mais
ampla « responsabilidade social » da empresa. Apesar de os parâmetros éticos que
guiam actualmente o debate sobre a responsabilidade social da empresa não serem,
segundo a perspectiva da doutrina social da Igreja, todos aceitáveis, é um facto
que se vai difundindo cada vez mais a convicção de que a gestão da empresa
não pode ter em conta unicamente os interesses dos proprietários da mesma, mas
deve preocupar-se também com as outras diversas categorias de sujeitos que
contribuem para a vida da empresa: os trabalhadores, os clientes, os
fornecedores dos vários factores de produção, a comunidade de referimento. Nos
últimos anos, notou-se o crescimento duma classe cosmopolita de gerentes, que
muitas vezes respondem só às indicações dos accionistas da empresa constituídos
geralmente por fundos anónimos que estabelecem de facto as suas remunerações.
Todavia, hoje, há também muitos gerentes que, através de análises clarividentes,
se dão conta cada vez mais dos profundos laços que a sua empresa tem com o
território ou territórios, onde opera. Paulo VI convidava a avaliar seriamente o
dano que a transferência de capitais para o estrangeiro, com exclusivas
vantagens pessoais, pode causar à própria nação.95 E João Paulo II
advertia que investir tem sempre um significado moral, para além de
económico.96 Tudo isto — há que reafirmá-lo — é válido também hoje,
não obstante o mercado dos capitais tenha sido muito liberalizado e as
mentalidades tecnológicas modernas possam induzir a pensar que investir seja
apenas um facto técnico, e não humano e ético. Não há motivo para negar que um
certo capital possa ser ocasião de bem, se investido no estrangeiro antes que na
pátria; mas devem-se ressalvar os vínculos de justiça, tendo em conta também o
modo como aquele capital se formou e os danos que causará às pessoas o seu não
investimento nos lugares onde o mesmo foi gerado.97 É preciso evitar
que o motivo para o emprego dos recursos financeiros seja especulativo,
cedendo à tentação de procurar apenas o lucro a breve prazo sem cuidar
igualmente da sustentabilidade da empresa a longo prazo, do seu serviço concreto
à economia real e duma adequada e oportuna promoção de iniciativas económicas
também nos países necessitados de desenvolvimento. Também não há motivo para
negar que a deslocalização, quando compreende investimentos e formação, possa
fazer bem às populações do país que a acolhe — o trabalho e o conhecimento
técnico são uma necessidade universal –; mas não é lícito deslocalizar somente
para gozar de especiais condições de favor ou, pior ainda, para exploração, sem
prestar uma verdadeira contribuição à sociedade local para o nascimento de um
robusto sistema produtivo e social, factor imprescindível para um
desenvolvimento estável.
41. Dentro do
mesmo tema, é útil observar que o espírito empresarial tem, e deve
assumir cada vez mais, um significado polivalente. A longa prevalência do
binómio mercado-Estado habituou-nos a pensar exclusivamente, por um lado, no
empresário privado de tipo capitalista e, por outro, no director estatal. Na
realidade, o espírito empresarial há-de ser entendido de modo articulado, como
se depreende duma série de motivações meta-económicas. O espírito empresarial,
antes de ter significado profissional, possui um significado humano;98
está inscrito em cada trabalho, visto como « actus personæ »,99
pelo que é bom oferecer a cada trabalhador a possibilidade de prestar a própria
contribuição, de tal modo que ele mesmo « saiba trabalhar ‘‘por conta própria''
».100 Ensinava Paulo VI, não sem motivo, que « todo o trabalhador é
um criador ».101 Precisamente para dar resposta às exigências e à
dignidade de quem trabalha e às necessidades da sociedade é que existem vários
tipos de empresa, muito para além da simples distinção entre « privado » e «
público ». Cada uma requer e exprime um espírito empresarial específico. A fim
de realizar uma economia que, num futuro próximo, saiba colocar-se ao serviço do
bem comum nacional e mundial, convém ter em conta este significado amplo de
espírito empresarial. Tal concepção mais ampla favorece o intercâmbio e a
formação recíproca entre as diversas tipologias de empresariado, com
transferência de competências do mundo sem lucro para aquele com lucro e
vice-versa, do sector público para o âmbito próprio da sociedade civil, do mundo
das economias avançadas para aquele dos países em vias de desenvolvimento.
Também a «
autoridade política » tem um significado polivalente, que não se pode
esquecer quando se procede à realização duma nova ordem económico-produtiva,
responsável socialmente e à medida do homem. Assim como se pretende fomentar um
espírito empresarial diferenciado no plano mundial, assim também se deve
promover uma autoridade política repartida e activa a vários níveis. A economia
integrada de nossos dias não elimina a função dos Estados, antes obriga os
governos a uma colaboração recíproca mais intensa. Razões de sabedoria e
prudência sugerem que não se proclame depressa demais o fim do Estado;
relativamente à solução da crise actual, a sua função parece destinada a
crescer, readquirindo muitas das suas competências. Além disso, existem nações,
cuja edificação ou reconstrução do Estado continua a ser um elemento-chave do
seu desenvolvimento. A ajuda internacional, precisamente no âmbito de um
projecto de solidariedade que tivesse em vista a solução dos problemas
económicos actuais, deveria sobretudo apoiar a consolidação de sistemas
constitucionais, jurídicos, administrativos nos países que ainda não gozam de
tais bens. A par das ajudas económicas, devem existir outros apoios tendentes a
reforçar as garantias próprias do Estado de direito, um sistema de ordem
pública e carcerário eficiente no respeito dos direitos humanos, instituições
verdadeiramente democráticas. Não é preciso que o Estado tenha, em todo o lado,
as mesmas características: o apoio para reforço dos sistemas constitucionais
débeis pode muito bem ser acompanhado pelo desenvolvimento de outros sujeitos
políticos de natureza cultural, social, territorial ou religiosa, ao lado do
Estado. A articulação da autoridade política a nível local, nacional e
internacional é, para além do mais, uma das vias mestras para se chegar a poder
orientar a globalização económica; e é também o modo de evitar que esta mine
realmente os alicerces da democracia.
42. Notam-se às
vezes atitudes fatalistas a respeito da globalização, como se as
dinâmicas em acto fossem produzidas por forças impessoais anónimas e por
estruturas independentes da vontade humana.102 A tal propósito, é bom
recordar que a globalização há-de ser entendida, sem dúvida, como um processo
sócio-económico, mas esta sua dimensão não é a única. Sob o processo mais
visível, há a realidade duma humanidade que se torna cada vez mais interligada;
tal realidade é constituída por pessoas e povos, para quem o referido processo
deve ser de utilidade e desenvolvimento,103 graças à assunção das
respectivas responsabilidades por parte tanto dos indivíduos como da
colectividade. A superação das fronteiras é um dado não apenas material mas
também cultural nas suas causas e efeitos. Se a globalização for lida de maneira
determinista, perdem-se os critérios para a avaliar e orientar. Trata-se de uma
realidade humana que pode ter, na sua fonte, várias orientações culturais, sobre
as quais é preciso fazer discernimento. A verdade da globalização enquanto
processo e o seu critério ético fundamental provêm da unidade da família humana
e do seu desenvolvimento no bem. Por isso é preciso empenhar-se sem cessar por
favorecer uma orientação cultural personalista e comunitária, aberta à
transcendência, do processo de integração mundial.
Não obstante
algumas limitações estruturais, que não se hão-de negar nem absolutizar, « a
globalização a priori não é boa nem má. Será aquilo que as pessoas
fizerem dela ».104 Não devemos ser vítimas dela, mas protagonistas,
actuando com razoabilidade, guiados pela caridade e a verdade. Opor-se-lhe
cegamente seria uma atitude errada, fruto de preconceito, que acabaria por
ignorar um processo marcado também por aspectos positivos, com o risco de perder
uma grande ocasião de se inserir nas múltiplas oportunidades de desenvolvimento
por ele oferecidas. Adequadamente concebidos e geridos, os processos de
globalização oferecem a possibilidade duma grande redistribuição da riqueza a
nível mundial, como antes nunca tinha acontecido; se mal geridos, podem, pelo
contrário, fazer crescer pobreza e desigualdade, bem como contagiar com uma
crise o mundo inteiro. É preciso corrigir as suas disfunções, tantas
vezes graves, que introduzem novas divisões entre os povos e no interior dos
mesmos, e fazer com que a redistribuição da riqueza não se verifique à custa de
uma redistribuição da pobreza ou até com o seu agravamento, como uma má gestão
da situação actual poderia fazer-nos temer. Durante muito tempo, pensou-se que
os povos pobres deveriam permanecer ancorados a um estádio predeterminado de
desenvolvimento, contentando-se com a filantropia dos povos desenvolvidos.
Contra esta mentalidade, tomou posição Paulo VI na Populorum progressio.
Hoje, as forças materiais de que se pode dispor para fazer aqueles povos sair da
miséria são potencialmente maiores do que outrora, mas acabaram por se
aproveitar delas prevalentemente os povos dos países desenvolvidos, que
conseguiram desfrutar melhor o processo de liberalização dos movimentos de
capitais e do trabalho. Por isso a difusão dos ambientes de bem-estar a nível
mundial não deve ser refreada por projectos egoístas, proteccionistas ou ditados
por interesses particulares. De facto, hoje, o envolvimento dos países
emergentes ou em vias de desenvolvimento permite gerir melhor a crise. A
transição inerente ao processo de globalização apresenta grandes dificuldades e
perigos, que poderão ser superados apenas se se souber tomar consciência daquela
alma antropológica e ética que, do mais fundo, impele a própria globalização
para metas de humanização solidária. Infelizmente esta alma é muitas vezes
abafada e condicionada por perspectivas ético-culturais de impostação
individualista e utilitarista. A globalização é um fenómeno pluridimensional e
polivalente, que exige ser compreendido na diversidade e unidade de todas as
suas dimensões, incluindo a teológica. Isto permitirá viver e orientar a
globalização da humanidade em termos de relacionamento, comunhão e partilha.
CAPÍTULO IV
DESENVOLVIMENTO DOS POVOS,
DIREITOS E DEVERES, AMBIENTE
43. « A
solidariedade universal é para nós não só um facto e um benefício, mas também um
dever ».105 Hoje, muitas pessoas tendem a alimentar a pretensão de
que não devem nada a ninguém, a não ser a si mesmas. Considerando-se titulares
só de direitos, frequentemente deparam-se com fortes obstáculos para maturar uma
responsabilidade no âmbito do desenvolvimento integral próprio e alheio. Por
isso, é importante invocar uma nova reflexão que faça ver como os direitos
pressupõem deveres, sem os quais o seu exercício se transforma em arbítrio.106
Assiste-se hoje a uma grave contradição: enquanto, por um lado, se reivindicam
presuntos direitos, de carácter arbitrário e libertino, querendo vê-los
reconhecidos e promovidos pelas estruturas públicas, por outro existem direitos
elementares e fundamentais violados e negados a boa parte da humanidade.107
Aparece com frequência assinalada uma relação entre a reivindicação do direito
ao supérfluo, senão mesmo à transgressão e ao vício, nas sociedades opulentes e
a falta de alimento, água potável, instrução básica, cuidados sanitários
elementares em certas regiões do mundo do subdesenvolvimento e também nas
periferias de grandes metrópoles. A relação está no facto de que os direitos
individuais, desvinculados de um quadro de deveres que lhes confira um sentido
completo, enlouquecem e alimentam uma espiral de exigências praticamente
ilimitada e sem critérios. A exasperação dos direitos desemboca no esquecimento
dos deveres. Estes delimitam os direitos porque remetem para o quadro
antropológico e ético cuja verdade é o âmbito onde os mesmos se inserem e, deste
modo, não descambam no arbítrio. Por este motivo, os deveres reforçam os
direitos e propõem a sua defesa e promoção como um compromisso a assumir ao
serviço do bem. Se, pelo contrário, os direitos do homem encontram o seu
fundamento apenas nas deliberações duma assembleia de cidadãos, podem ser
alterados em qualquer momento e, assim, o dever de os respeitar e promover
atenua-se na consciência comum. Então os governos e os organismos internacionais
podem esquecer a objectividade e « indisponibilidade » dos direitos. Quando isto
acontece, põe-se em perigo o verdadeiro desenvolvimento dos povos.108
Semelhantes posições comprometem a autoridade dos organismos internacionais,
sobretudo aos olhos dos países mais carecidos de desenvolvimento. De facto,
estes pedem que a comunidade internacional assuma como um dever ajudá-los a
serem « artífices do seu destino »,109 ou seja, a assumirem por sua
vez deveres. A partilha dos deveres recíprocos mobiliza muito mais do que
a mera reivindicação de direitos.
44. A concepção
dos direitos e dos deveres no desenvolvimento deve ter em conta também as
problemáticas ligadas com o crescimento demográfico. Trata-se de um
aspecto muito importante do verdadeiro desenvolvimento, porque diz respeito aos
valores irrenunciáveis da vida e da família.110 Considerar o aumento
da população como a primeira causa do subdesenvolvimento é errado, inclusive do
ponto de vista económico: basta pensar, por um lado, na considerável diminuição
da mortalidade infantil e no alongamento médio da vida que se regista nos países
economicamente desenvolvidos, e, por outro, nos sinais de crise que se observam
nas sociedades onde se regista uma preocupante queda da natalidade. Obviamente é
forçoso prestar a devida atenção a uma procriação responsável, que constitui,
para além do mais, uma real contribuição para o desenvolvimento integral. A
Igreja, que tem a peito o verdadeiro desenvolvimento do homem, recomenda-lhe o
respeito dos valores humanos também no uso da sexualidade: o mesmo não pode ser
reduzido a um mero facto hedonista e lúdico, do mesmo modo que a educação sexual
não se pode limitar à instrução técnica, tendo como única preocupação defender
os interessados de eventuais contágios ou do « risco » procriador. Isto
equivaleria a empobrecer e negligenciar o significado profundo da sexualidade,
que deve, pelo contrário, ser reconhecido e assumido responsavelmente tanto pela
pessoa como pela comunidade. Com efeito, a responsabilidade impede que se
considere a sexualidade como uma simples fonte de prazer ou que seja regulada
com políticas de planificação forçada dos nascimentos. Em ambos os casos,
estamos perante concepções e políticas materialistas, no âmbito das quais as
pessoas acabam por sofrer várias formas de violência. A tudo isto há que
contrapor a competência primária das famílias neste campo,111
relativamente ao Estado e às suas políticas restritivas, e também uma apropriada
educação dos pais.
A abertura
moralmente responsável à vida é uma riqueza social e económica.
Grandes nações puderam sair da miséria, justamente graças ao grande número e às
capacidades dos seus habitantes. Pelo contrário, nações outrora prósperas
atravessam agora uma fase de incerteza e, em alguns casos, de declínio
precisamente por causa da diminuição da natalidade, problema crucial para as
sociedades de proeminente bem-estar. A diminuição dos nascimentos, situando-se
por vezes abaixo do chamado « índice de substituição », põe em crise também os
sistemas de assistência social, aumenta os seus custos, contrai a acumulação de
poupanças e, consequentemente, os recursos financeiros necessários para os
investimentos, reduz a disponibilização de trabalhadores qualificados, restringe
a reserva aonde ir buscar os « cérebros » para as necessidades da nação. Além
disso, as famílias de pequena e, às vezes, pequeníssima dimensão correm o risco
de empobrecer as relações sociais e de não garantir formas eficazes de
solidariedade. São situações que apresentam sintomas de escassa confiança no
futuro e de cansaço moral. Deste modo, torna-se uma necessidade social, e mesmo
económica, continuar a propor às novas gerações a beleza da família e do
matrimónio, a correspondência de tais instituições às exigências mais profundas
do coração e da dignidade da pessoa. Nesta perspectiva, os Estados são chamados
a instaurar políticas que promovam a centralidade e a integridade da família,
fundada no matrimónio entre um homem e uma mulher, célula primeira e vital da
sociedade,112 preocupando-se também com os seus problemas económicos
e fiscais, no respeito da sua natureza relacional.
45. Dar resposta
às exigências morais mais profundas da pessoa tem também importantes e benéficas
consequências no plano económico. De facto, a economia tem necessidade da
ética para o seu correcto funcionamento; não de uma ética qualquer, mas de
uma ética amiga da pessoa. Hoje fala-se muito de ética em campo económico,
financeiro, empresarial. Nascem centros de estudo e percursos formativos de
negócios éticos; difunde-se no mundo desenvolvido o sistema das certificações
éticas, na esteira do movimento de ideias nascido à volta da responsabilidade
social da empresa. Os bancos propõem contas e fundos de investimento chamados «
éticos ». Desenvolvem-se as « finanças éticas », sobretudo através do
micro-crédito e, mais em geral, de micro-financiamentos. Tais processos suscitam
apreço e merecem amplo apoio. Os seus efeitos positivos fazem-se sentir também
nas áreas menos desenvolvidas da terra. Todavia, é bom formar também um válido
critério de discernimento, porque se nota um certo abuso do adjectivo « ético »,
o qual, se usado vagamente, presta-se a designar conteúdos muito diversos,
chegando-se a fazer passar à sua sombra decisões e opções contrárias à justiça e
ao verdadeiro bem do homem.
Com efeito, muito
depende do sistema moral em que se baseia. Sobre este argumento, a doutrina
social da Igreja tem um contributo próprio e específico para dar, que se funda
na criação do homem « à imagem de Deus » (Gn 1, 27), um dado do qual
deriva a dignidade inviolável da pessoa humana e também o valor transcendente
das normas morais naturais. Uma ética económica que prescinda destes dois
pilares arrisca-se inevitavelmente a perder o seu cunho específico e a
prestar-se a instrumentalizações; mais concretamente, arrisca-se a aparecer em
função dos sistemas económico-financeiros existentes, em vez de servir de
correcção às disfunções dos mesmos. Além do mais, acabaria até por justificar o
financiamento de projectos que não são éticos. Por outro lado, não se deve
recorrer ao termo « ético » de modo ideologicamente discriminatório, dando a
perceber que não seriam éticas as iniciativas não dotadas formalmente de tal
qualificação. Um dado é essencial: a necessidade de trabalhar não só para que
nasçam sectores ou segmentos « éticos » da economia ou das finanças, mas também
para que toda a economia e as finanças sejam éticas: e não por uma rotulação
exterior, mas pelo respeito de exigências intrínsecas à sua própria natureza. A
tal respeito, se pronuncia com clareza a doutrina social da Igreja, que recorda
como a economia, em todas as suas extensões, seja um sector da actividade
humana.113
46. Considerando
as temáticas referentes à relação entre empresa e ética e também a
evolução que o sistema produtivo está a fazer, parece que a distinção usada até
agora entre empresas que têm por finalidade o lucro (profit) e
organizações que não buscam o lucro (non profit) já não é capaz de dar
cabalmente conta da realidade, nem de orientar eficazmente o futuro. Nestas
últimas décadas, foi surgindo entre as duas tipologias de empresa uma ampla área
intermédia. Esta é constituída por empresas tradicionais mas que subscrevem
pactos de ajuda aos países atrasados, por fundações que são expressão de
empresas individuais, por grupos de empresas que se propõem objectivos de
utilidade social, pelo mundo diversificado dos sujeitos da chamada economia
civil e de comunhão. Não se trata apenas de um « terceiro sector », mas de uma
nova e ampla realidade complexa, que envolve o privado e o público e que não
exclui o lucro mas considera-o como instrumento para realizar finalidades
humanas e sociais. O facto de tais empresas distribuírem ou não os ganhos ou de
assumirem uma ou outra das configurações previstas pelas normas jurídicas
torna-se secundário relativamente à sua disponibilidade a conceber o lucro como
um instrumento para alcançar finalidades de humanização do mercado e da
sociedade. É desejável que estas novas formas de empresa também encontrem, em
todos os países, adequada configuração jurídica e fiscal. Sem nada tirar à
importância e utilidade económica e social das formas tradicionais de empresa,
fazem evoluir o sistema para uma assunção mais clara e perfeita dos deveres por
parte dos sujeitos económicos. E não só... A própria pluralidade das formas
institucionais de empresa gera um mercado mais humano e simultaneamente mais
competitivo.
47. O
fortalecimento das diversas tipologias de empresa, mormente das que são capazes
de conceber o lucro como um instrumento para alcançar finalidades de humanização
do mercado e das sociedades, deve ser procurado também nos países que sofrem
exclusão ou marginalização dos circuitos da economia global, onde é muito
importante avançar com projectos de subsidiariedade devidamente concebida e
gerida que tendam a potenciar os direitos, mas prevendo sempre também a assunção
das correlativas responsabilidades. Nas intervenções em prol do
desenvolvimento, há que salvaguardar o princípio da centralidade da
pessoa humana, que é o sujeito que primariamente deve assumir o dever do
desenvolvimento. A preocupação principal é a melhoria das situações de vida das
pessoas concretas duma certa região, para que possam desempenhar aqueles deveres
que actualmente a indigência não lhes permite respeitar. A solicitude nunca pode
ser uma atitude abstracta. Para poderem adaptar-se às diversas situações, os
programas de desenvolvimento devem ser flexíveis; e as pessoas beneficiárias
deveriam estar envolvidas directamente na sua delineação e tornar-se
protagonistas da sua actuação. É necessário também aplicar os critérios da
progressão e do acompanhamento — incluindo a monitorização dos resultados —
porque não há receitas válidas universalmente; depende muito da gestão concreta
das intervenções. « São os povos os autores e primeiros responsáveis do próprio
desenvolvimento. Mas não o poderão realizar isolados ».114 Esta
advertência de Paulo VI é ainda mais válida hoje, com o processo de progressiva
integração que se vai consolidando na terra. As dinâmicas de inclusão não têm
nada de mecânico. As soluções hão-de ser calibradas olhando a vida dos povos e
das pessoas concretas com base numa ponderada avaliação de cada situação. Ao
lado dos macro-projectos servem os micro-projectos, e sobretudo serve a
mobilização real de todos os sujeitos da sociedade civil, das pessoas tanto
jurídicas como físicas.
A cooperação
internacional precisa de pessoas que partilhem o processo de desenvolvimento
económico e humano, através da solidariedade feita de presença, acompanhamento,
formação e respeito. Sob este ponto de vista, os próprios organismos
internacionais deveriam interrogar-se sob a real eficácia dos seus aparatos
burocráticos e administrativos, frequentemente muito dispendiosos. Às vezes
sucede que o destinatário das ajudas seja utilizado em função de quem o ajuda e
que os pobres sirvam para manter de pé dispendiosas organizações burocráticas
que reservam para sua própria conservação percentagens demasiado elevadas dos
recursos que, ao invés, deveriam ser aplicados no desenvolvimento. Nesta
perspectiva, seria desejável que todos os organismos internacionais e as
organizações não governamentais se comprometessem a uma plena transparência,
informando os doadores e a opinião pública acerca da percentagem de fundos
recebidos destinada aos programas de cooperação, acerca do verdadeiro conteúdo
de tais programas e, por último, acerca da configuração das despesas da própria
instituição.
48. O tema do
desenvolvimento aparece, hoje, estreitamente associado também com os deveres que
nascem do relacionamento do homem com o ambiente natural. Este foi dado
por Deus a todos, constituindo o seu uso uma responsabilidade que temos para com
os pobres, as gerações futuras e a humanidade inteira. Quando a natureza, a
começar pelo ser humano, é considerada como fruto do acaso ou do determinismo
evolutivo, a noção da referida responsabilidade debilita-se nas consciências. Na
natureza, o crente reconhece o resultado maravilhoso da intervenção criadora de
Deus, de que o homem se pode responsavelmente servir para satisfazer as suas
legítimas exigências — materiais e imateriais — no respeito dos equilíbrios
intrínsecos da própria criação. Se falta esta perspectiva, o homem acaba ou por
considerar a natureza um tabu intocável ou, ao contrário, por abusar dela. Nem
uma nem outra destas atitudes corresponde à visão cristã da natureza, fruto da
criação de Deus.
A natureza é
expressão de um desígnio de amor e de verdade.
Precede-nos, tendo-nos sido dada por Deus como ambiente de vida. Fala-nos do
Criador (cf. Rm 1, 20) e do seu amor pela humanidade. Está destinada, no
fim dos tempos, a ser « instaurada » em Cristo (cf. Ef 1, 9-10; Col
1, 19-20). Por conseguinte, também ela é uma « vocação ».115 A
natureza está à nossa disposição, não como « um monte de lixo espalhado ao acaso
»,116 mas como um dom do Criador que traçou os seus ordenamentos
intrínsecos dos quais o homem há-de tirar as devidas orientações para a «
guardar e cultivar » (Gn 2, 15). Mas é preciso sublinhar também que é
contrário ao verdadeiro desenvolvimento considerar a natureza mais importante do
que a própria pessoa humana. Esta posição induz a comportamentos neo-pagãos ou a
um novo panteísmo: só da natureza, entendida em sentido puramente naturalista,
não pode derivar a salvação para o homem. Por outro lado, há que rejeitar também
a posição oposta, que visa a sua completa tecnicização, porque o ambiente
natural não é apenas matéria de que dispor a nosso bel-prazer, mas obra
admirável do Criador, contendo nela uma « gramática » que indica finalidades e
critérios para uma utilização sapiente, não instrumental nem arbitrária. Advêm,
hoje, muitos danos ao desenvolvimento precisamente destas concepções deformadas.
Reduzir completamente a natureza a um conjunto de simples dados reais acaba por
ser fonte de violência contra o ambiente e até por motivar acções
desrespeitadoras da própria natureza do homem. Esta, constituída não só de
matéria mas também de espírito e, como tal, rica de significados e de fins
transcendentes a alcançar, tem um carácter normativo também para a cultura. O
homem interpreta e modela o ambiente natural através da cultura, a qual, por sua
vez, é orientada por meio da liberdade responsável, atenta aos ditames da lei
moral. Por isso, os projectos para um desenvolvimento humano integral não podem
ignorar os vindouros, mas devem ser animados pela solidariedade e a justiça
entre as gerações, tendo em conta os diversos âmbitos: ecológico, jurídico,
económico, político, cultural.117
49. Hoje, as
questões relacionadas com o cuidado e a preservação do ambiente devem ter na
devida consideração as problemáticas energéticas. De facto, o
açambarcamento dos recursos energéticos não renováveis por parte de alguns
Estados, grupos de poder e empresas constitui um grave impedimento para o
desenvolvimento dos países pobres. Estes não têm os meios económicos para chegar
às fontes energéticas não renováveis que existem, nem para financiar a pesquisa
de fontes novas e alternativas. A monopolização dos recursos naturais, que em
muitos casos se encontram precisamente nos países pobres, gera exploração e
frequentes conflitos entre as nações e dentro das mesmas. E muitas vezes estes
conflitos são travados precisamente no território de tais países, com um pesado
balanço em termos de mortes, destruições e maior degradação. A comunidade
internacional tem o imperioso dever de encontrar as vias institucionais para
regular a exploração dos recursos não renováveis, com a participação também dos
países pobres, de modo a planificar em conjunto o futuro.
Também sobre este
aspecto, há urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade,
especialmente nas relações entre os países em vias de desenvolvimento e os
países altamente industrializados.118 As sociedades tecnicamente
avançadas podem e devem diminuir o consumo energético seja porque as actividades
manufactureiras evoluem, seja porque entre os seus cidadãos reina maior
sensibilidade ecológica. Além disso há que acrescentar que, actualmente, é
possível melhorar a eficiência energética e fazer avançar a pesquisa de energias
alternativas; mas é necessária também uma redistribuição mundial dos recursos
energéticos, de modo que os próprios países desprovidos possam ter acesso aos
mesmos. O seu destino não pode ser deixado nas mãos do primeiro a chegar nem
estar sujeito à lógica do mais forte. Trata-se de problemas relevantes que, para
ser enfrentados de modo adequado, requerem da parte de todos uma responsável
tomada de consciência das consequências que recairão sobre as novas gerações,
principalmente sobre a imensidade de jovens presentes nos povos pobres, que «
reclamam a sua parte activa na construção de um mundo melhor ».119
50. Esta
responsabilidade é global, porque não diz respeito somente à energia, mas a toda
a criação, que não devemos deixar às novas gerações depauperada dos seus
recursos. É lícito ao homem exercer um governo responsável sobre a natureza
para a guardar, fazer frutificar e cultivar inclusive com formas novas e
tecnologias avançadas, para que possa acolher e alimentar condignamente a
população que a habita. Há espaço para todos nesta nossa terra: aqui a família
humana inteira deve encontrar os recursos necessários para viver decorosamente,
com a ajuda da própria natureza, dom de Deus aos seus filhos, e com o empenho do
seu próprio trabalho e inventiva. Devemos, porém, sentir como gravíssimo o dever
de entregar a terra às novas gerações num estado tal que também elas possam
dignamente habitá-la e continuar a cultivá-la. Isto implica « o empenho de
decidir juntos depois de ter ponderado responsavelmente qual a estrada a
percorrer, com o objectivo de reforçar aquela aliança entre ser humano e
ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e
para Quem estamos a caminho ».120 É desejável que a comunidade
internacional e os diversos governos saibam contrastar, de maneira eficaz, as
modalidades de utilização do ambiente que sejam danosas para o mesmo. É
igualmente forçoso que se empreendam, por parte das autoridades competentes,
todos os esforços necessários para que os custos económicos e sociais derivados
do uso dos recursos ambientais comuns sejam reconhecidos de maneira transparente
e plenamente suportados por quem deles usufrui e não por outras populações nem
pelas gerações futuras: a protecção do ambiente, dos recursos e do clima requer
que todos os responsáveis internacionais actuem conjuntamente e se demonstrem
prontos a agir de boa fé, no respeito da lei e da solidariedade para com as
regiões mais débeis da terra.121 Uma das maiores tarefas da economia
é precisamente um uso mais eficiente dos recursos, não o abuso, tendo sempre
presente que a noção de eficiência não é axiologicamente neutra.
51. As
modalidades com que o homem trata o ambiente influem sobre as modalidades com
que se trata a si mesmo, e vice-versa. Isto chama a sociedade actual a uma
séria revisão do seu estilo de vida que, em muitas partes do mundo, pende para o
hedonismo e o consumismo, sem olhar aos danos que daí derivam.122 É
necessária uma real mudança de mentalidade que nos induza a adoptar novos
estilos de vida, « nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom e a
comunhão com os outros homens para um crescimento comum sejam os elementos que
determinam as opções dos consumos, das poupanças e dos investimentos ».123
Toda a lesão da solidariedade e da amizade cívica provoca danos ambientais,
assim como a degradação ambiental por sua vez gera insatisfação nas relações
sociais. A natureza, especialmente no nosso tempo, está tão integrada nas
dinâmicas sociais e culturais que quase já não constitui uma variável
independente. A desertificação e a penúria produtiva de algumas áreas agrícolas
são fruto também do empobrecimento das populações que as habitam e do seu
atraso. Incentivando o desenvolvimento económico e cultural daquelas populações,
tutela-se também a natureza. Além disso, quantos recursos naturais são
devastados pela guerra! A paz dos povos e entre os povos permitiria também uma
maior preservação da natureza. O açambarcamento dos recursos, especialmente da
água, pode provocar graves conflitos entre as populações envolvidas. Um acordo
pacífico sobre o uso dos recursos pode salvaguardar a natureza e,
simultaneamente, o bem-estar das sociedades interessadas.
A Igreja sente o
seu peso de responsabilidade pela criação
e deve fazer
valer esta responsabilidade também em público. Ao fazê-lo, não tem apenas de
defender a terra, a água e o ar como dons da criação que pertencem a todos, mas
deve sobretudo proteger o homem da destruição de si mesmo. Requer-se uma espécie
de ecologia do homem, entendida no justo sentido. De facto, a degradação da
natureza está estreitamente ligada à cultura que molda a convivência humana:
quando a « ecologia humana » 124 é respeitada dentro da
sociedade, beneficia também a ecologia ambiental. Tal como as virtudes
humanas são intercomunicantes, de modo que o enfraquecimento de uma põe em risco
também as outras, assim também o sistema ecológico se rege sobre o respeito de
um projecto que se refere tanto à sã convivência em sociedade como ao bom
relacionamento com a natureza.
Para preservar a
natureza não basta intervir com incentivos ou penalizações económicas, nem é
suficiente uma instrução adequada. Trata-se de instrumentos importantes, mas
o problema decisivo é a solidez moral da sociedade em geral.
Se não é respeitado o direito à vida e à morte natural, se se torna artificial a
concepção, a gestação e o nascimento do homem, se são sacrificados embriões
humanos na pesquisa, a consciência comum acaba por perder o conceito de ecologia
humana e, com ele, o de ecologia ambiental. É uma contradição pedir às novas
gerações o respeito do ambiente natural, quando a educação e as leis não as
ajudam a respeitar-se a si mesmas. O livro da natureza é uno e indivisível,
tanto sobre a vertente do ambiente como sobre a vertente da vida, da
sexualidade, do matrimónio, da família, das relações sociais, numa palavra, do
desenvolvimento humano integral. Os deveres que temos para com o ambiente estão
ligados com os deveres que temos para com a pessoa considerada em si mesma e em
relação com os outros; não se podem exigir uns e espezinhar os outros. Esta é
uma grave antinomia da mentalidade e do costume actual, que avilta a pessoa,
transtorna o ambiente e prejudica a sociedade.
52. A verdade e o
amor que a mesma desvenda não se podem produzir, mas apenas acolher. A sua fonte
última não é — nem pode ser — o homem, mas Deus, ou seja, Aquele que é Verdade e
Amor. Este princípio é muito importante para a sociedade e para o
desenvolvimento, enquanto nem uma nem outro podem ser somente produtos humanos;
a própria vocação ao desenvolvimento das pessoas e dos povos não se funda sobre
a simples deliberação humana, mas está inscrita num plano que nos precede e
constitui para todos nós um dever que há-de ser livremente assumido. Aquilo que
nos precede e constitui — o Amor e a Verdade subsistentes — indica-nos o que é o
bem e em que consiste a nossa felicidade. E, por conseguinte, aponta-nos o
caminho para o verdadeiro desenvolvimento.
CAPÍTULO V
A COLABORAÇÃO
DA FAMÍLIA HUMANA
53. Uma das
pobrezas mais profundas que o homem pode experimentar é a solidão. Vistas bem as
coisas, as outras pobrezas, incluindo a material, também nascem do isolamento,
de não ser amado ou da dificuldade de amar. As pobrezas frequentemente nasceram
da recusa do amor de Deus, de uma originária e trágica reclusão do homem em si
próprio, que pensa que se basta a si mesmo ou então que é só um facto
insignificante e passageiro, um « estrangeiro » num universo formado por acaso.
O homem aliena-se quando fica sozinho ou se afasta da realidade, quando renuncia
a pensar e a crer num Fundamento.125 A humanidade inteira aliena-se
quando se entrega a projectos unicamente humanos, a ideologias e a falsas
utopias.126 A humanidade aparece, hoje, muito mais interactiva do que
no passado: esta maior proximidade deve transformar-se em verdadeira comunhão.
O desenvolvimento dos povos depende sobretudo do reconhecimento que são uma só
família, a qual colabora em verdadeira comunhão e é formada por sujeitos que
não se limitam a viver uns ao lado dos outros.127
Observava Paulo
VI que « o mundo sofre por falta de convicções ».128 A afirmação quer
exprimir não apenas uma constatação, mas sobretudo um voto: serve um novo ímpeto
do pensamento para compreender melhor as implicações do facto de sermos uma
família; a interacção entre os povos da terra chama-nos a este ímpeto, para que
a integração se verifique sob o signo da solidariedade,129 e não da
marginalização. Tal pensamento obriga a um aprofundamento crítico e
axiológico da categoria relação. Trata-se de uma tarefa que não pode ser
desempenhada só pelas ciências sociais, mas requer a contribuição de ciências
como a metafísica e a teologia para ver lucidamente a dignidade transcendente do
homem.
De natureza
espiritual, a criatura humana realiza-se nas relações interpessoais: quanto mais
as vive de forma autêntica, tanto mais amadurece a própria identidade pessoal.
Não é isolando-se que o homem se valoriza a si mesmo, mas relacionando-se com os
outros e com Deus, pelo que estas relações são de importância fundamental. Isto
vale também para os povos; por isso é muito útil para o seu desenvolvimento uma
visão metafísica da relação entre as pessoas. A tal respeito, a razão encontra
inspiração e orientação na revelação cristã, segundo a qual a comunidade dos
homens não absorve em si a pessoa aniquilando a sua autonomia, como acontece nas
várias formas de totalitarismo, mas valoriza-a ainda mais porque a relação entre
pessoa e comunidade é feita de um todo para outro todo.130 Do mesmo
modo que a comunidade familiar não anula em si as pessoas que a compõem e a
própria Igreja valoriza plenamente a « nova criatura » (Gal 6, 15; 2
Cor 5, 17) que pelo baptismo se insere no seu Corpo vivo, assim também a
unidade da família humana não anula em si as pessoas, os povos e as culturas,
mas torna-os mais transparentes reciprocamente, mais unidos nas suas legítimas
diversidades.
54. O tema do
desenvolvimento coincide com o da inclusão relacional de todas as pessoas e de
todos os povos na única comunidade da família humana, que se constrói na
solidariedade tendo por base os valores fundamentais da justiça e da paz. Esta
perspectiva encontra um decisivo esclarecimento na relação entre as Pessoas da
Trindade na única Substância divina. A Trindade é absoluta unidade, enquanto as
três Pessoas divinas são pura relação. A transparência recíproca entre as
Pessoas divinas é plena, e a ligação de uma com a outra total, porque constituem
uma unidade e unicidade absoluta. Deus quer-nos associar também a esta realidade
de comunhão: « para que sejam um como Nós somos um » (Jo 17, 22). A
Igreja é sinal e instrumento desta unidade.131 As próprias relações
entre os homens, ao longo da história, só podem ganhar com a referência a este
Modelo divino. De modo particular compreende-se, à luz do mistério revelado
da Trindade, que a verdadeira abertura não significa dispersão centrífuga,
mas profunda compenetração. O mesmo resulta das experiências humanas comuns do
amor e da verdade. Como o amor sacramental entre os esposos os une
espiritualmente a ponto de formarem « uma só carne » (Gn 2, 24; Mt
19, 5; Ef 5, 31) e, de dois que eram, faz uma unidade relacional e real,
de forma análoga a verdade une os espíritos entre si e fá-los pensar em
uníssono, atraindo-os e unindo-os nela.
55. A revelação
cristã sobre a unidade do género humano pressupõe uma interpretação
metafísica do humanum na qual a relação seja elemento essencial.
Também outras culturas e outras religiões ensinam a fraternidade e a paz,
revestindo-se, por isso, de grande importância para o desenvolvimento humano
integral; mas não faltam comportamentos religiosos e culturais em que não se
assume plenamente o princípio do amor e da verdade, e acaba-se assim por refrear
o verdadeiro desenvolvimento humano ou mesmo impedi-lo. O mundo actual regista a
presença de algumas culturas de matiz religioso que não empenham o homem na
comunhão, mas isolam-no na busca do bem-estar individual, limitando-se a
satisfazer os seus anseios psicológicos. Também uma certa proliferação de
percursos religiosos de pequenos grupos ou mesmo de pessoas individuais e o
sincretismo religioso podem ser factores de dispersão e de apatia. Um possível
efeito negativo do processo de globalização é a tendência a favorecer tal
sincretismo,132 alimentando formas de « religião » que, em vez de
fazer as pessoas encontrarem-se, alheiam-nas umas das outras e afastam-nas da
realidade. Simultaneamente às vezes perduram legados culturais e religiosos que
bloqueiam a sociedade em castas sociais estáticas, em crenças mágicas não
respeitadoras da dignidade da pessoa, em comportamentos de sujeição a forças
ocultas. Nestes contextos, o amor e a verdade encontram dificuldade em
afirmar-se, com prejuízo para o autêntico desenvolvimento.
Por este motivo,
se é verdade, por um lado, que o desenvolvimento tem necessidade das religiões e
das culturas dos diversos povos, por outro, não o é menos a necessidade de um
adequado discernimento. A liberdade religiosa não significa indiferentismo
religioso, nem implica que todas as religiões sejam iguais.133 Para a
construção da comunidade social no respeito do bem comum, torna-se necessário,
sobretudo para quem exerce o poder político, o discernimento sobre o contributo
das culturas e das religiões. Tal discernimento deverá basear-se sobre o
critério da caridade e da verdade. Dado que está em jogo o desenvolvimento das
pessoas e dos povos, aquele há-de ter em conta a possibilidade de emancipação e
de inclusão na perspectiva de uma comunidade humana verdadeiramente universal. O
critério « o homem todo e todos os homens » serve para avaliar também as
culturas e as religiões. O cristianismo, religião do « Deus de rosto humano »,134
traz em si mesmo tal critério.
56. A religião
cristã e as outras religiões só podem dar o seu contributo para o
desenvolvimento, se Deus encontrar lugar também na esfera pública,
nomeadamente nas dimensões cultural, social, económica e particularmente
política. A doutrina social da Igreja nasceu para reivindicar este « estatuto de
cidadania »135 da religião cristã. A negação do direito de professar
publicamente a própria religião e de fazer com que as verdades da fé moldem a
vida pública, acarreta consequências negativas para o verdadeiro
desenvolvimento. A exclusão da religião do âmbito público e, na vertente oposta,
o fundamentalismo religioso impedem o encontro entre as pessoas e a sua
colaboração para o progresso da humanidade. A vida pública torna-se pobre de
motivações, e a política assume um rosto oprimente e agressivo. Os direitos
humanos correm o risco de não ser respeitados, ou porque ficam privados do seu
fundamento transcendente ou porque não é reconhecida a liberdade pessoal. No
laicismo e no fundamentalismo, perde-se a possibilidade de um diálogo fecundo e
de uma profícua colaboração entre a razão e a fé religiosa. A razão tem
sempre necessidade de ser purificada pela fé; e isto vale também para a
razão política, que não se deve crer omnipotente. A religião, por sua
vez, precisa sempre de ser purificada pela razão, para mostrar o seu
autêntico rosto humano. A ruptura deste diálogo implica um custo muito gravoso
para o desenvolvimento da humanidade.
57. O diálogo
fecundo entre fé e razão não pode deixar de tornar mais eficaz a acção da
caridade na sociedade, e constitui o quadro mais apropriado para incentivar a
colaboração fraterna entre crentes e não crentes na perspectiva comum de
trabalhar pela justiça e a paz da humanidade. Na constituição pastoral
Gaudium et spes, os Padres conciliares afirmavam: « Tudo quanto existe sobre
a terra deve ser ordenado em função do homem, como seu centro e seu termo: neste
ponto existe um acordo quase geral entre crentes e não crentes ».136
Segundo os crentes, o mundo não é fruto do acaso nem da necessidade, mas de um
projecto de Deus. Daqui nasce o dever que os crentes têm de unir os seus
esforços com todos os homens e mulheres de boa vontade de outras religiões ou
não crentes, para que este nosso mundo corresponda efectivamente ao projecto
divino: viver como uma família, sob o olhar do seu Criador. Particular
manifestação da caridade e critério orientador para a colaboração fraterna de
crentes e não crentes é, sem dúvida, o princípio de subsidiariedade,137
expressão da inalienável liberdade humana. A subsidiariedade é, antes de mais
nada, uma ajuda à pessoa, na autonomia dos corpos intermédios. Tal ajuda é
oferecida quando a pessoa e os sujeitos sociais não conseguem operar por si sós,
e implica sempre finalidades emancipativas, porque favorece a liberdade e a
participação enquanto assunção de responsabilidades. A subsidiariedade respeita
a dignidade da pessoa, na qual vê um sujeito sempre capaz de dar algo aos
outros. Ao reconhecer na reciprocidade a constituição íntima do ser humano, a
subsidiariedade é o antídoto mais eficaz contra toda a forma de assistencialismo
paternalista. Pode motivar tanto a múltipla articulação dos vários níveis e
consequentemente a pluralidade dos sujeitos, como a sua coordenação. Trata-se,
pois, de um princípio particularmente idóneo para governar a globalização e
orientá-la para um verdadeiro desenvolvimento humano. Para não se gerar um
perigoso poder universal de tipo monocrático, o governo da globalização deve
ser de tipo subsidiário, articulado segundo vários e diferenciados níveis
que colaborem reciprocamente. A globalização tem necessidade, sem dúvida, de
autoridade, enquanto põe o problema de um bem comum global a alcançar; mas tal
autoridade deverá ser organizada de modo subsidiário e poliárquico,138
seja para não lesar a liberdade, seja para resultar concretamente eficaz.
58. O
princípio de subsidiariedade há-de ser mantido estritamente ligado com o
princípio de solidariedade e vice-versa, porque, se a subsidiariedade sem a
solidariedade decai no particularismo social, a solidariedade sem a
subsidiariedade decai no assistencialismo que humilha o sujeito necessitado.
Esta regra de carácter geral deve ser tida em grande consideração também quando
se enfrentam as temáticas referentes às ajudas internacionais destinadas ao
desenvolvimento. Estas, independentemente das intenções dos doadores, podem
por vezes manter um povo num estado de dependência e até favorecer situações de
sujeição local e de exploração dentro do país ajudado. Para serem
verdadeiramente tais, as ajudas económicas não devem visar segundos fins. Hão-de
ser concedidas envolvendo não só os governos dos países interessados, mas também
os agentes económicos locais e os sujeitos da sociedade civil portadores de
cultura, incluindo as Igrejas locais. Os programas de ajuda devem assumir sempre
mais as características de programas integrados e participados a partir de
baixo. A verdade é que o maior recurso a valorizar nos países que são assistidos
no desenvolvimento é o recurso humano: este é o autêntico capital que se há-de
fazer crescer para assegurar aos países mais pobres um verdadeiro futuro
autónomo. Há que recordar também que, no campo económico, a principal ajuda de
que têm necessidade os países em vias de desenvolvimento é a de permitir e
favorecer a progressiva inserção dos seus produtos nos mercados internacionais,
tornando possível assim a sua plena participação na vida económica
internacional.
Muitas vezes,
no passado, as ajudas serviram apenas para criar mercados marginais para os
produtos destes países.
Isto,
frequentemente, fica a dever-se à falta de uma verdadeira procura destes
produtos; por isso, é necessário ajudar tais países a melhorar os seus produtos
e a adaptá-los melhor à procura. Além disso, alguns temem a concorrência das
importações de produtos, normalmente agrícolas, provenientes dos países
economicamente pobres; contudo devem-se recordar que, para estes países, a
possibilidade de comercializar tais produtos significa muitas vezes garantir a
sua sobrevivência a breve e longo prazo. Um comércio internacional justo e
equilibrado no campo agrícola pode trazer benefícios a todos, quer do lado da
oferta quer do lado da procura. Por este motivo, é preciso não só orientar
comercialmente estas produções, mas também estabelecer regras comerciais
internacionais que as apoiem e reforçar o financiamento ao desenvolvimento para
tornar mais produtivas estas economias.
59. A
cooperação no desenvolvimento
não deve limitar-se apenas à dimensão económica, mas há-de tornar-se uma grande
ocasião de encontro cultural e humano. Se os sujeitos da cooperação dos
países economicamente desenvolvidos não têm em conta — como às vezes sucede — a
identidade cultural, própria e alheia, feita de valores humanos, não podem
instaurar algum diálogo profundo com os cidadãos dos países pobres. Se estes,
por sua vez, se abrem indiferentemente e sem discernimento a qualquer proposta
cultural, ficam sem condições para assumir a responsabilidade do seu autêntico
desenvolvimento.139 As sociedades tecnologicamente avançadas não
devem confundir o próprio desenvolvimento tecnológico com uma suposta
superioridade cultural, mas hão-de descobrir em si próprias virtudes, por vezes
esquecidas, que as fizeram florescer ao longo da história. As sociedades em
crescimento devem permanecer fiéis a tudo o que há de verdadeiramente humano nas
suas tradições, evitando de lhe sobrepor automaticamente os mecanismos da
civilização tecnológica globalizada. Existem, em todas as culturas, singulares e
variadas convergências éticas, expressão de uma mesma natureza humana querida
pelo Criador e que a sabedoria ética da humanidade chama lei natural.140
Esta lei moral universal é um fundamento firme de todo o diálogo cultural,
religioso e político e permite que o multiforme pluralismo das várias culturas
não se desvie da busca comum da verdade, do bem e de Deus. Por isso, a adesão a
esta lei escrita nos corações é o pressuposto de qualquer colaboração social
construtiva. Em todas as culturas existem pesos de que libertar-se, sombras a
que subtrair-se. A fé cristã, que se encarna nas culturas transcendendo-as, pode
ajudá-las a crescer na fraternização e solidariedade universais com benefício
para o desenvolvimento comunitário e mundial.
60. Quando se
procurarem soluções para a crise económica actual, a ajuda ao desenvolvimento
dos países pobres deve ser considerada como verdadeiro instrumento de criação de
riqueza para todos. Que projecto de ajuda pode abrir perspectivas tão
significativas de mais valia — mesmo da economia mundial — como o apoio a
populações que se encontram ainda numa fase inicial ou pouco avançada do seu
processo de desenvolvimento económico? Nesta linha, os Estados economicamente
mais desenvolvidos hão-de fazer o possível por destinar quotas maiores do seu
produto interno bruto para as ajudas ao desenvolvimento, respeitando os
compromissos que, sobre este ponto, foram tomados a nível de comunidade
internacional. Poderão fazê-lo inclusivamente revendo as políticas internas de
assistência e de solidariedade social, aplicando-lhes o princípio de
subsidiariedade e criando sistemas mais integrativos de previdência social, com
a participação activa dos sujeitos privados e da sociedade civil. Deste modo,
pode-se até melhorar os serviços sociais e de assistência e simultaneamente
poupar recursos, eliminando desperdícios e subvenções abusivas, para destinar à
solidariedade internacional. Um sistema de solidariedade social melhor
comparticipado e organizado, menos burocrático sem ficar menos coordenado,
permitiria valorizar muitas energias, hoje adormecidas, em benefício também da
solidariedade entre os povos.
Uma possibilidade
de ajuda para o desenvolvimento poderia derivar da aplicação eficaz da chamada
subsidiariedade fiscal, que permitiria aos cidadãos decidirem a destinação de
quotas dos seus impostos versados ao Estado. Evitando degenerações
particularistas, isso pode servir de incentivo para formas de solidariedade
social a partir de baixo, com óbvios benefícios também na vertente da
solidariedade para o desenvolvimento.
61. Uma
solidariedade mais ampla a nível internacional exprime-se, antes de mais nada,
continuando a promover, mesmo em condições de crise económica, maior acesso à
educação, já que esta é condição essencial para a eficácia da própria
cooperação internacional. Com o termo « educação », não se pretende referir
apenas à instrução escolar ou à formação para o trabalho — ambas, causas
importantes de desenvolvimento — mas à formação completa da pessoa. A este
propósito, deve-se sublinhar um aspecto do problema: para educar, é preciso
saber quem é a pessoa humana, conhecer a sua natureza. A progressiva difusão de
uma visão relativista desta coloca sérios problemas à educação, sobretudo à
educação moral, prejudicando a sua extensão a nível universal. Cedendo a tal
relativismo, ficam todos mais pobres, com consequências negativas também sobre a
eficácia da ajuda às populações mais carecidas, que não têm necessidade apenas
de meios económicos ou técnicos, mas também de métodos e meios pedagógicos que
ajudem as pessoas a chegar à sua plena realização humana.
Um exemplo da
relevância deste problema temo-lo no fenómeno do turismo internacional,141
que pode constituir notável factor de desenvolvimento económico e de crescimento
cultural, mas pode também transformar-se em ocasião de exploração e degradação
moral. A situação actual oferece singulares oportunidades para que os aspectos
económicos do desenvolvimento, ou seja, os fluxos de dinheiro e o nascimento em
sede local de significativas experiências empresariais, cheguem a combinar-se
com os aspectos culturais, sendo o educativo o primeiro deles. Há casos onde
isso ocorre, mas em muitos outros o turismo internacional é fenómeno
deseducativo tanto para o turista como para as populações locais. Com
frequência, estas são confrontadas com comportamentos imorais ou mesmo
perversos, como no caso do chamado turismo sexual, em que são sacrificados
muitos seres humanos, mesmo de tenra idade. É doloroso constatar que isto
acontece frequentemente com o aval dos governos locais, com o silêncio dos
governos donde provêm os turistas e com a cumplicidade de muitos agentes do
sector. Mesmo quando não se chega tão longe, o turismo internacional não
raramente é vivido de modo consumista e hedonista, como evasão e com modalidades
de organização típicas dos países de proveniência, e assim não se favorece um
verdadeiro encontro entre pessoas e culturas. Por isso, é preciso pensar num
turismo diverso, capaz de promover verdadeiro conhecimento recíproco, sem tirar
espaço ao repouso e ao são divertimento: um turismo deste género há-de ser
incrementado, graças também a uma ligação mais estreita com as experiências de
cooperação internacional e de empresariado para o desenvolvimento.
62. Outro aspecto
merecedor de atenção, ao tratar do desenvolvimento humano integral, é o fenómeno
das migrações. É um fenómeno impressionante pela quantidade de pessoas
envolvidas, pelas problemáticas sociais, económicas, políticas, culturais e
religiosas que levanta, pelos desafios dramáticos que coloca às comunidades
nacional e internacional. Pode-se dizer que estamos perante um fenómeno social
de natureza epocal, que requer uma forte e clarividente política de cooperação
internacional para ser convenientemente enfrentado. Esta política há-de ser
desenvolvida a partir de uma estreita colaboração entre os países donde partem
os emigrantes e os países de chegada; há-de ser acompanhada por adequadas
normativas internacionais capazes de harmonizar os diversos sistemas
legislativos, na perspectiva de salvaguardar as exigências e os direitos das
pessoas e das famílias emigradas e, ao mesmo tempo, os das sociedades de chegada
dos próprios emigrantes. Nenhum país se pode considerar capaz de enfrentar,
sozinho, os problemas migratórios do nosso tempo. Todos somos testemunhas da
carga de sofrimentos, contrariedades e aspirações que acompanha os fluxos
migratórios. Como é sabido, o fenómeno é de gestão complicada; todavia é certo
que os trabalhadores estrangeiros, não obstante as dificuldades relacionadas com
a sua integração, prestam com o seu trabalho um contributo significativo para o
desenvolvimento económico do país de acolhimento e também do país de origem com
as remessas monetárias. Obviamente, tais trabalhadores não podem ser
considerados como simples mercadoria ou mera força de trabalho; por isso, não
devem ser tratados como qualquer outro factor de produção. Todo o imigrante é
uma pessoa humana e, enquanto tal, possui direitos fundamentais inalienáveis que
hão-de ser respeitados por todos em qualquer situação.142
63. Ao considerar
os problemas do desenvolvimento, não se pode deixar de pôr em evidência o nexo
directo entre pobreza e desemprego. Em muitos casos, os pobres são o
resultado da violação da dignidade do trabalho humano, seja porque as
suas possibilidades são limitadas (desemprego, subemprego), seja porque são
desvalorizados « os direitos que dele brotam, especialmente o direito ao justo
salário, à segurança da pessoa do trabalhador e da sua família ».143
Por isso, já no dia 1 de Maio de 2000, o meu predecessor João Paulo II, de
venerada memória, lançou um apelo, por ocasião do Jubileu dos Trabalhadores,
para « uma coligação mundial em favor do trabalho decente »,144
encorajando a estratégia da Organização Internacional do Trabalho. Conferia,
assim, uma forte valência moral a este objectivo, enquanto aspiração das
famílias em todos os países do mundo. Qual é o significado da palavra « decência
» aplicada ao trabalho? Significa um trabalho que, em cada sociedade, seja a
expressão da dignidade essencial de todo o homem e mulher: um trabalho escolhido
livremente, que associe eficazmente os trabalhadores, homens e mulheres, ao
desenvolvimento da sua comunidade; um trabalho que, deste modo, permita aos
trabalhadores serem respeitados sem qualquer discriminação; um trabalho que
consinta satisfazer as necessidades das famílias e dar a escolaridade aos
filhos, sem que estes sejam constrangidos a trabalhar; um trabalho que permita
aos trabalhadores organizarem-se livremente e fazerem ouvir a sua voz; um
trabalho que deixe espaço suficiente para reencontrar as próprias raízes a nível
pessoal familiar e espiritual; um trabalho que assegure aos trabalhadores
aposentados uma condição decorosa.
64. Ao reflectir
sobre este tema do trabalho, é oportuna uma chamada de atenção também para a
urgente necessidade de as organizações sindicais dos trabalhadores –
desde sempre encorajadas e apoiadas pela Igreja — se abrirem às novas
perspectivas que surgem no âmbito laboral. Superando as limitações próprias dos
sindicatos de categoria, as organizações sindicais são chamadas a
responsabilizar-se pelos novos problemas das nossas sociedades: refiro-me, por
exemplo, ao conjunto de questões que os peritos de ciências sociais identificam
no conflito entre pessoa-trabalhadora e pessoa-consumidora. Sem ter
necessariamente de abraçar a tese duma efectiva passagem da centralidade do
trabalhador para a do consumidor, parece em todo o caso que também este seja um
terreno para experiências sindicais inovadoras. O contexto global em que se
realiza o trabalho requer igualmente que as organizações sindicais nacionais,
fechadas prevalentemente na defesa dos interesses dos próprios inscritos, volvam
o olhar também para os não inscritos, particularmente para os trabalhadores dos
países em vias de desenvolvimento, onde frequentemente os direitos sociais são
violados. A defesa destes trabalhadores, promovida com oportunas iniciativas
também nos países de origem, permitirá às organizações sindicais porem em
evidência as autênticas razões éticas e culturais que lhes consentiram, em
contextos sociais e laborais diferentes, ser um factor decisivo para o
desenvolvimento. Continua sempre válido o ensinamento da Igreja que propõe a
distinção de papéis e funções entre sindicato e política. Esta distinção
possibilitará às organizações sindicais individualizarem na sociedade civil o
âmbito mais ajustado para a sua acção necessária de defesa e promoção do mundo
do trabalho, sobretudo a favor dos trabalhadores explorados e não representados,
cuja amarga condição resulta frequentemente ignorada pelo olhar distraído da
sociedade.
65. Em seguida, é
preciso que as finanças enquanto tais — com estruturas e modalidades de
funcionamento necessariamente renovadas depois da sua má utilização que
prejudicou a economia real — voltem a ser um instrumento que tenha em vista a
melhor produção de riqueza e o desenvolvimento. Enquanto instrumentos, a
economia e as finanças em toda a respectiva extensão, e não apenas em alguns dos
seus sectores, devem ser utilizadas de modo ético a fim de criar as condições
adequadas para o desenvolvimento do homem e dos povos. É certamente útil, senão
mesmo indispensável em certas circunstâncias, dar vida a iniciativas financeiras
nas quais predomine a dimensão humanitária. Isto, porém, não deve fazer esquecer
que o inteiro sistema financeiro deve ser orientado para dar apoio a um
verdadeiro desenvolvimento. Sobretudo, é necessário que não se contraponha o
intuito de fazer o bem ao da efectiva capacidade de produzir bens. Os operadores
das finanças devem redescobrir o fundamento ético próprio da sua actividade,
para não abusarem de instrumentos sofisticados que possam atraiçoar os
aforradores. Recta intenção, transparência e busca de bons resultados são
compatíveis entre si e não devem jamais ser separados. Se o amor é inteligente,
sabe encontrar também os modos para agir segundo uma previdente e justa
conveniência, como significativamente indicam muitas experiências no campo do
crédito cooperativo.
Tanto uma
regulamentação do sector capaz de assegurar os sujeitos mais débeis e impedir
escandalosas especulações, como a experimentação de novas formas de
financiamento destinadas a favorecer projectos de desenvolvimento, são
experiências positivas que hão-de ser aprofundadas e encorajadas, invocando a
responsabilidade própria do aforrador. Também a experiência do
micro-financiamento, que mergulha as próprias raízes na reflexão e nas obras
dos humanistas civis (penso nomeadamente no nascimento dos montepios), há-de ser
revigorada e sistematizada, sobretudo nestes tempos em que os problemas
financeiros podem tornar-se dramáticos para muitos sectores mais vulneráveis da
população, que devem ser tutelados dos riscos de usura ou do desespero. Os
sujeitos mais débeis hão-de ser educados para se defender da usura, do mesmo
modo que os povos pobres devem ser educados para tirar real vantagem do
micro-crédito, desencorajando assim as formas de exploração possíveis nestes
dois campos. Uma vez que existem novas formas de pobreza também nos países
ricos, o micro-financiamento pode proporcionar ajudas concretas para a criação
de iniciativas e sectores novos em favor das classes débeis da sociedade mesmo
numa fase de possível empobrecimento da própria sociedade.
66. A
interligação mundial fez surgir um novo poder político: o dos consumidores e
das suas associações. Trata-se de um fenómeno carecido de aprofundamento,
com elementos positivos que hão-de ser incentivados e excessos que se devem
evitar. É bom que as pessoas ganhem consciência de que a acção de comprar é
sempre um acto moral, para além de económico. Por isso, ao lado da
responsabilidade social da empresa, há uma específica responsabilidade social
do consumidor. Este há-de ser educado,145 sem cessar, para o
papel que exerce diariamente e que pode desempenhar no respeito dos princípios
morais, sem diminuir a racionalidade económica intrínseca ao acto de comprar.
Também no sector das compras — precisamente em tempos como os que se estão
experimentando e que vêem o poder de compra reduzir-se, devendo por conseguinte
consumir com maior sobriedade — é necessário percorrer outras estradas como, por
exemplo, formas de cooperação para as compras à semelhança das cooperativas de
consumo activas a partir do século XIX graças à iniciativa dos católicos. Além
disso, é útil favorecer formas novas de comercialização de produtos provenientes
de áreas pobres da terra para garantir uma retribuição decente aos produtores,
contanto que se trate de um mercado verdadeiramente transparente, que os
produtores não usufruam apenas de uma margem maior de lucro mas também de maior
formação, profissionalização e tecnologia, e que, enfim, não se incluam em tais
experiências de economia visões ideológicas de parte. Um papel mais incisivo dos
consumidores, desde que não sejam eles próprios manipulados por associações não
verdadeiramente representativas, é desejável como factor de democracia
económica.
67. Perante o
crescimento incessante da interdependência mundial, sente-se imenso — mesmo no
meio de uma recessão igualmente mundial — a urgência de uma reforma quer da
Organização das Nações Unidas quer da arquitectura económica e financeira
internacional, para que seja possível uma real concretização do conceito de
família de nações. De igual modo sente-se a urgência de encontrar formas
inovadoras para actuar o princípio da responsabilidade de proteger
146 e para atribuir também às nações mais pobres uma voz eficaz nas
decisões comuns. Isto revela-se necessário precisamente no âmbito de um
ordenamento político, jurídico e económico que incremente e guie a colaboração
internacional para o desenvolvimento solidário de todos os povos. Para o governo
da economia mundial, para sanar as economias atingidas pela crise de modo a
prevenir o agravamento da mesma e em consequência maiores desequilíbrios, para
realizar um oportuno e integral desarmamento, a segurança alimentar e a paz,
para garantir a salvaguarda do ambiente e para regulamentar os fluxos
migratórios urge a presença de uma verdadeira Autoridade política mundial,
delineada já pelo meu predecessor, o Beato João XXIII. A referida Autoridade
deverá regular-se pelo direito, ater-se coerentemente aos princípios de
subsidiariedade e solidariedade, estar orientada para a consecução do bem comum,147
comprometer-se na realização de um autêntico desenvolvimento humano integral
inspirado nos valores da caridade na verdade. Além disso, uma tal Autoridade
deverá ser reconhecida por todos, gozar de poder efectivo para garantir a cada
um a segurança, a observância da justiça, o respeito dos direitos.148
Obviamente, deve gozar da faculdade de fazer com que as partes respeitem as
próprias decisões, bem como as medidas coordenadas e adoptadas nos diversos
fóruns internacionais. É que, se isso faltasse, o direito internacional, não
obstante os grandes progressos realizados nos vários campos, correria o risco de
ser condicionado pelos equilíbrios de poder entre os mais fortes. O
desenvolvimento integral dos povos e a colaboração internacional exigem que seja
instituído um grau superior de ordenamento internacional de tipo subsidiário
para o governo da globalização 149 e que se dê finalmente actuação a
uma ordem social conforme à ordem moral e àquela ligação entre esfera moral e
social, entre política e esfera económica e civil que aparece já perspectivada
no Estatuto das Nações Unidas.
CAPÍTULO VI
O DESENVOLVIMENTO
DOS POVOS E A TÉCNICA
68. O tema do
desenvolvimento dos povos está intimamente ligado com o do desenvolvimento de
cada indivíduo. Por sua natureza, a pessoa humana está dinamicamente orientada
para o próprio desenvolvimento. Não se trata de um desenvolvimento garantido por
mecanismos naturais, porque cada um de nós sabe que é capaz de realizar opções
livres e responsáveis; também não se trata de um desenvolvimento à mercê do
nosso capricho, enquanto todos sabemos que somos dom e não resultado de
auto-geração. Em nós, a liberdade é originariamente caracterizada pelo nosso ser
e pelos seus limites. Ninguém plasma arbitrariamente a própria consciência, mas
todos formam a própria personalidade sobre a base duma natureza que lhe foi
dada. Não são apenas as outras pessoas que são indisponíveis; também nós não
podemos dispor arbitrariamente de nós mesmos. O desenvolvimento da pessoa
degrada-se, se ela pretende ser a única produtora de si mesma. De igual
modo, degenera o desenvolvimento dos povos, se a humanidade pensa que se pode
re-criar valendo-se dos « prodígios » da tecnologia. Analogamente, o progresso
económico revela-se fictício e danoso quando se abandona aos « prodígios » das
finanças para apoiar incrementos artificiais e consumistas. Perante esta
pretensão prometeica, devemos robustecer o amor por uma liberdade não
arbitrária, mas tornada verdadeiramente humana pelo reconhecimento do bem que a
precede. Com tal objectivo, é preciso que o homem reentre em si mesmo, para
reconhecer as normas fundamentais da lei moral natural que Deus inscreveu no seu
coração.
69. Hoje, o
problema do desenvolvimento está estreitamente unido com o progresso
tecnológico, com as suas deslumbrantes aplicações no campo biológico. A
técnica — é bom sublinhá-lo — é um dado profundamente humano, ligado à autonomia
e à liberdade do homem. Nela exprime-se e confirma-se o domínio do espírito
sobre a matéria. O espírito, « tornando-se assim ‘‘mais liberto da escravidão
das coisas, pode facilmente elevar-se ao culto e à contemplação do Criador'' ».150
A técnica permite dominar a matéria, reduzir os riscos, poupar fadigas, melhorar
as condições de vida. Dá resposta à própria vocação do trabalho humano: na
técnica, considerada como obra do génio pessoal, o homem reconhece-se a si mesmo
e realiza a própria humanidade. A técnica é o aspecto objectivo do agir humano,151
cuja origem e razão de ser estão no elemento subjectivo: o homem que actua. Por
isso, aquela nunca é simplesmente técnica; mas manifesta o homem e as suas
aspirações ao desenvolvimento, exprime a tensão do ânimo humano para uma gradual
superação de certos condicionamentos materiais. Assim, a técnica insere-se no
mandato de « cultivar e guardar a terra » (Gn 2, 15) que Deus confiou
ao homem, e há-de ser orientada para reforçar aquela aliança entre ser humano e
ambiente em que se deve reflectir o amor criador de Deus.
70. O
desenvolvimento tecnológico pode induzir à ideia de auto-suficiência da própria
técnica, quando o homem, interrogando-se apenas sobre o como, deixa de considerar os muitos porquês pelos quais é impelido a agir. Por isso, a
técnica apresenta-se com uma fisionomia ambígua. Nascida da criatividade humana
como instrumento da liberdade da pessoa, pode ser entendida como elemento de
liberdade absoluta; aquela liberdade que quer prescindir dos limites que as
coisas trazem consigo. O processo de globalização poderia substituir as
ideologias com a técnica,152 passando esta a ser um poder ideológico
que exporia a humanidade ao risco de se ver fechada dentro de um a priori
do qual não poderia sair para encontrar o ser e a verdade. Em tal caso, todos
nós conheceríamos, avaliaríamos e decidiríamos as situações da nossa vida a
partir do interior de um horizonte cultural tecnocrático, ao qual pertenceríamos
estruturalmente, sem poder jamais encontrar um sentido que não fosse produzido
por nós. Esta visão torna hoje tão forte a mentalidade tecnicista que faz
coincidir a verdade com o factível. Mas, quando o único critério da verdade é a
eficiência e a utilidade, o desenvolvimento acaba automaticamente negado. De
facto, o verdadeiro desenvolvimento não consiste primariamente no fazer; a chave
do desenvolvimento é uma inteligência capaz de pensar a técnica e de
individualizar o sentido plenamente humano do agir do homem, no horizonte de
sentido da pessoa vista na globalidade do seu ser. Mesmo quando actua mediante
um satélite ou um comando electrónico à distância, o seu agir continua sempre
humano, expressão de uma liberdade responsável. A técnica seduz intensamente o
homem, porque o livra das limitações físicas e alarga o seu horizonte. Mas a
liberdade humana só o é propriamente quando responde à sedução da técnica com
decisões que sejam fruto de responsabilidade moral. Daqui, a urgência de uma
formação para a responsabilidade ética no uso da técnica. A partir do fascínio
que a técnica exerce sobre o ser humano, deve-se recuperar o verdadeiro sentido
da liberdade, que não consiste no inebriamento de uma autonomia total, mas na
resposta ao apelo do ser, a começar pelo ser que somos nós mesmos.
71. Esta
possibilidade da mentalidade técnica se desviar do seu originário álveo
humanista ressalta, hoje, nos fenómenos da tecnicização do desenvolvimento e da
paz. Frequentemente o desenvolvimento dos povos é considerado um problema de
engenharia financeira, de abertura dos mercados, de redução das tarifas
aduaneiras, de investimentos produtivos, de reformas institucionais; em suma, um
problema apenas técnico. Todos estes âmbitos são muito importantes, mas não
podemos deixar de interrogar-nos por que motivo, até agora, as opções de tipo
técnico tenham resultado apenas de modo relativo. A razão há-de ser procurada
mais profundamente. O desenvolvimento não será jamais garantido completamente
por forças de certo modo automáticas e impessoais, sejam elas as do mercado ou
as da política internacional. O desenvolvimento é impossível sem homens
rectos, sem operadores económicos e homens políticos que sintam intensamente em
suas consciências o apelo do bem comum. São necessárias tanto a preparação
profissional como a coerência moral. Quando prevalece a absolutização da
técnica, verifica-se uma confusão entre fins e meios: como único critério de
acção, o empresário considerará o máximo lucro da produção; o político, a
consolidação do poder; o cientista, o resultado das suas descobertas. Deste modo
sucede frequentemente que, sob a rede das relações económicas, financeiras ou
políticas, persistem incompreensões, contrariedades e injustiças; os fluxos dos
conhecimentos técnicos multiplicam-se, mas em benefício dos seus proprietários,
enquanto a situação real das populações que vivem sob tais influxos, e quase
sempre na sua ignorância, permanece imutável e sem efectivas possibilidades de
emancipação.
72. Às vezes,
também a paz corre o risco de ser considerada como uma produção técnica, fruto
apenas de acordos entre governos ou de iniciativas tendentes a assegurar ajudas
económicas eficientes. É verdade que a construção da paz exige um
constante tecimento de contactos diplomáticos, intercâmbios económicos e
tecnológicos, encontros culturais, acordos sobre projectos comuns, e também a
assunção de empenhos compartilhados para conter as ameaças de tipo bélico e
cercear à nascença eventuais tentações terroristas. Mas, para que tais esforços
possam produzir efeitos duradouros, é necessário que se apoiem sobre valores
radicados na verdade da vida. Por outras palavras, é preciso ouvir a voz das
populações interessadas e atender à situação delas para interpretar
adequadamente os seus anseios. De certo modo, deve-se colocar em continuidade
com o esforço anónimo de tantas pessoas decididamente comprometidas a promover o
encontro entre os povos e a favorecer o desenvolvimento partindo do amor e da
compreensão recíproca. Entre tais pessoas, contam-se também fiéis cristãos,
empenhados na grande tarefa de dar ao desenvolvimento e à paz um sentido
plenamente humano.
73. Ligada ao
desenvolvimento tecnológico está a crescente presença dos meios de
comunicação social. Já é quase impossível imaginar a existência da família
humana sem eles. No bem e no mal, estão de tal modo encarnados na vida do mundo,
que parece verdadeiramente absurda a posição de quantos defendem a sua
neutralidade, reivindicando em consequência a sua autonomia relativamente à
moral que diria respeito às pessoas. Muitas vezes tais perspectivas, que
enfatizam a natureza estritamente técnica dos mass-media, de facto
favorecem a sua subordinação a cálculos económicos, ao intuito de dominar os
mercados e, não último, ao desejo de impor parâmetros culturais em função de
projectos de poder ideológico e político. Dada a importância fundamental que têm
na determinação de alterações no modo de ler e conhecer a realidade e a própria
pessoa humana, torna-se necessária uma atenta reflexão sobre a sua influência
principalmente na dimensão ético-cultural da globalização e do desenvolvimento
solidário dos povos. Como requerido por uma correcta gestão da globalização e do
desenvolvimento, o sentido e a finalidade dos mass-media devem ser
buscados no fundamento antropológico. Isto quer dizer que os mesmos podem
tornar-se ocasião de humanização, não só quando, graças ao
desenvolvimento tecnológico, oferecem maiores possibilidades de comunicação e de
informação, mas também e sobretudo quando são organizados e orientados à luz de
uma imagem da pessoa e do bem comum que traduza os seus valores universais. Os
meios de comunicação social não favorecem a liberdade nem globalizam o
desenvolvimento e a democracia para todos, simplesmente porque multiplicam as
possibilidades de interligação e circulação das ideias; para alcançar tais
objectivos, é preciso que estejam centrados na promoção da dignidade das pessoas
e dos povos, animados expressamente pela caridade e colocados ao serviço da
verdade, do bem e da fraternidade natural e sobrenatural. De facto, na
humanidade, a liberdade está intrinsecamente ligada a estes valores superiores.
Os mass-media podem constituir uma válida ajuda para fazer crescer a
comunhão da família humana e o ethos das sociedades, quando se tornam
instrumentos de promoção da participação universal na busca comum daquilo que é
justo.
74. Hoje, um
campo primário e crucial da luta cultural entre o absolutismo da técnica e a
responsabilidade moral do homem é o da bioética, onde se joga
radicalmente a própria possibilidade de um desenvolvimento humano integral.
Trata-se de um âmbito delicadíssimo e decisivo, onde irrompe, com dramática
intensidade, a questão fundamental de saber se o homem se produziu por si mesmo
ou depende de Deus. As descobertas científicas neste campo e as possibilidades
de intervenção técnica parecem tão avançadas que impõem a escolha entre estas
duas concepções: a da razão aberta à transcendência ou a da razão fechada na
imanência. Está-se perante uma opção decisiva. No entanto a concepção racional
da tecnologia centrada sobre si mesma apresenta-se como irracional, porque
implica uma decidida rejeição do sentido e do valor. Não é por acaso que a
posição fechada à transcendência se defronta com a dificuldade de pensar como
tenha sido possível do nada ter brotado o ser e do acaso ter nascido a
inteligência.153 Face a estes dramáticos problemas, razão e fé
ajudam-se mutuamente; e só conjuntamente salvarão o homem: fascinada pela
pura tecnologia, a razão sem a fé está destinada a perder-se na ilusão da
própria omnipotência, enquanto a fé sem a razão corre o risco do alheamento da
vida concreta das pessoas.154
75. Paulo VI já
tinha reconhecido e indicado o horizonte mundial da questão social.155
Prosseguindo por esta estrada, é preciso afirmar que hoje a questão social
tornou-se radicalmente antropológica, enquanto toca o próprio modo não só de
conceber mas também de manipular a vida, colocada cada vez mais nas mãos do
homem pelas biotecnologias. A fecundação in vitro, a pesquisa sobre os
embriões, a possibilidade da clonagem e hibridação humana nascem e promovem-se
na actual cultura do desencanto total, que pensa ter desvendado todos os
mistérios porque já se chegou à raiz da vida. Aqui o absolutismo da técnica
encontra a sua máxima expressão. Em tal cultura, a consciência é chamada apenas
a registar uma mera possibilidade técnica. Contudo não se pode minimizar os
cenários inquietantes para o futuro do homem e os novos e poderosos instrumentos
que a « cultura da morte » tem à sua disposição. À difusa e trágica chaga do
aborto poder-se-ia juntar no futuro — embora sub-repticiamente já esteja
presente in nuce — uma sistemática planificação eugenética dos
nascimentos. No extremo oposto, vai abrindo caminho uma mens eutanasica,
manifestação não menos abusiva de domínio sobre a vida, que é considerada, em
certas condições, como não digna de ser vivida. Por detrás destes cenários
encontram-se posições culturais negacionistas da dignidade humana. Por sua vez,
estas práticas estão destinadas a alimentar uma concepção material e mecanicista
da vida humana. Quem poderá medir os efeitos negativos de tal mentalidade sobre
o desenvolvimento? Como poderá alguém maravilhar-se com a indiferença diante de
situações humanas de degradação, quando se comporta indiferentemente com o que é
humano e com aquilo que não o é? Maravilha a selecção arbitrária do que hoje é
proposto como digno de respeito: muitos, prontos a escandalizar-se por coisas
marginais, parecem tolerar injustiças inauditas. Enquanto os pobres do mundo
batem às portas da opulência, o mundo rico corre o risco de deixar de ouvir tais
apelos à sua porta por causa de uma consciência já incapaz de reconhecer o
humano. Deus revela o homem ao homem; a razão e a fé colaboram para lhe mostrar
o bem, desde que o queira ver; a lei natural, na qual reluz a Razão criadora,
indica a grandeza do homem, mas também a sua miséria quando ele desconhece o
apelo da verdade moral.
76. Um dos
aspectos do espírito tecnicista moderno é palpável na propensão a considerar os
problemas e as moções ligados à vida interior somente do ponto de vista
psicológico, chegando-se mesmo ao reducionismo neurológico. Assim esvazia-se a
interioridade do homem e, progressivamente, vai-se perdendo a noção da
consistência ontológica da alma humana, com as profundidades que os Santos
souberam pôr a descoberto. O problema do desenvolvimento está estritamente
ligado também com a nossa concepção da alma do homem, uma vez que o nosso eu
acaba muitas vezes reduzido ao psíquico, e a saúde da alma é confundida com o
bem-estar emotivo. Na base, estas reduções têm uma profunda incompreensão da
vida espiritual e levam-nos a ignorar que o desenvolvimento do homem e dos povos
depende verdadeiramente também da solução dos problemas de carácter espiritual.
Além do crescimento material, o desenvolvimento deve incluir o espiritual,
porque a pessoa humana é « um ser uno, composto de alma e corpo »,156
nascido do amor criador de Deus e destinado a viver eternamente. O ser humano
desenvolve-se quando cresce no espírito, quando a sua alma se conhece a si mesma
e apreende as verdades que Deus nela imprimiu em gérmen, quando dialoga consigo
mesma e com o seu Criador. Longe de Deus, o homem vive inquieto e está mal. A
alienação social e psicológica e as inúmeras neuroses que caracterizam as
sociedades opulentas devem-se também a causas de ordem espiritual. Uma sociedade
do bem-estar, materialmente desenvolvida mas oprimente para a alma, de per si
não está orientada para o autêntico desenvolvimento. As novas formas de
escravidão da droga e o desespero em que caiem tantas pessoas têm uma explicação
não só sociológica e psicológica, mas essencialmente espiritual. O vazio em que
a alma se sente abandonada, embora no meio de tantas terapias para o corpo e
para o psíquico, gera sofrimento. Não há desenvolvimento pleno nem bem comum
universal sem o bem espiritual e moral das pessoas, consideradas na sua
totalidade de alma e corpo.
77. O absolutismo
da técnica tende a produzir uma incapacidade de perceber aquilo que não se
explica meramente pela matéria; e, no entanto, todos os homens experimentam os
numerosos aspectos imateriais e espirituais da sua vida. Conhecer não é um acto
apenas material, porque o conhecido esconde sempre algo que está para além do
dado empírico. Todo o nosso conhecimento, mesmo o mais simples, é sempre um
pequeno prodígio, porque nunca se explica completamente com os instrumentos
materiais que utilizamos. Em cada verdade, há sempre mais do que nós mesmos
teríamos esperado; no amor que recebemos, há sempre qualquer coisa que nos
surpreende. Não deveremos cessar jamais de maravilhar-nos diante destes
prodígios. Em cada conhecimento e em cada acto de amor, a alma do homem
experimenta um « extra » que se assemelha muito a um dom recebido, a uma altura
para a qual nos sentimos atraídos. Também o desenvolvimento do homem e dos povos
se coloca a uma tal altura, se considerarmos a dimensão espiritual que
deve necessariamente conotar aquele para que possa ser autêntico. Este requer
olhos novos e um coração novo, capaz de superar a visão materialista dos
acontecimentos humanos e entrever no desenvolvimento um « mais além » que a
técnica não pode dar. Por este caminho, será possível perseguir aquele
desenvolvimento humano integral que tem o seu critério orientador na força
propulsora da caridade na verdade.
CONCLUSÃO
78. Sem Deus, o
homem não sabe para onde ir e não consegue sequer compreender quem seja. Perante
os enormes problemas do desenvolvimento dos povos que quase nos levam ao
desânimo e à rendição, vem em nosso auxílio a palavra do Senhor Jesus Cristo que
nos torna cientes deste dado fundamental: « Sem Mim, nada podeis fazer » (Jo
15, 5), e encoraja: « Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo » (Mt
28, 20). Diante da vastidão do trabalho a realizar, somos apoiados pela fé
na presença de Deus junto daqueles que se unem no seu nome e trabalham pela
justiça. Paulo VI recordou-nos, na Populorum progressio, que o homem não
é capaz de gerir sozinho o próprio progresso, porque não pode por si mesmo
fundar um verdadeiro humanismo. Somente se pensarmos que somos chamados,
enquanto indivíduos e comunidade, a fazer parte da família de Deus como seus
filhos, é que seremos capazes de produzir um novo pensamento e exprimir novas
energias ao serviço de um verdadeiro humanismo integral. Por isso, a maior força
ao serviço do desenvolvimento é um humanismo cristão 157 que reavive
a caridade e que se deixe guiar pela verdade, acolhendo uma e outra como dom
permanente de Deus. A disponibilidade para Deus abre à disponibilidade para os
irmãos e para uma vida entendida como tarefa solidária e jubilosa. Pelo
contrário, a reclusão ideológica a Deus e o ateísmo da indiferença, que esquecem
o Criador e correm o risco de esquecer também os valores humanos, contam-se hoje
entre os maiores obstáculos ao desenvolvimento. O humanismo que exclui Deus é
um humanismo desumano. Só um humanismo aberto ao Absoluto pode guiar-nos na
promoção e realização de formas de vida social e civil — no âmbito das
estruturas, das instituições, da cultura, do ethos — preservando-nos do
risco de cairmos prisioneiros das modas do momento. É a consciência do Amor
indestrutível de Deus que nos sustenta no fadigoso e exaltante compromisso a
favor da justiça, do desenvolvimento dos povos, por entre êxitos e fracassos, na
busca incessante de ordenamentos rectos para as realidades humanas. O amor de
Deus chama-nos a sair daquilo que é limitado e não definitivo, dá-nos coragem de
agir continuando a procurar o bem de todos, ainda que não se realize
imediatamente e aquilo que conseguimos actuar — nós e as autoridades políticas e
os operadores económicos — seja sempre menos de quanto anelamos.158
Deus dá-nos a força de lutar e sofrer por amor do bem comum, porque Ele é o
nosso Tudo, a nossa esperança maior.
79. O
desenvolvimento tem necessidade de cristãos com os braços levantados para Deus
em atitude de oração, cristãos movidos pela consciência de que o amor cheio de
verdade — caritas in veritate –, do qual procede o desenvolvimento
autêntico, não o produzimos nós, mas é-nos dado. Por isso, inclusive nos
momentos mais difíceis e complexos, além de reagir conscientemente devemos
sobretudo referir-nos ao seu amor. O desenvolvimento implica atenção à vida
espiritual, uma séria consideração das experiências de confiança em Deus, de
fraternidade espiritual em Cristo, de entrega à providência e à misericórdia
divina, de amor e de perdão, de renúncia a si mesmos, de acolhimento do próximo,
de justiça e de paz. Tudo isto é indispensável para transformar os « corações de
pedra » em « corações de carne » (Ez 36, 26), para tornar « divina » e
consequentemente mais digna do homem a vida sobre a terra. Tudo isto é do
homem, porque o homem é sujeito da própria existência; e ao mesmo tempo é
de Deus, porque Deus está no princípio e no fim de tudo aquilo que tem valor
e redime: « quer o mundo, quer a vida, quer a morte, quer o presente, quer o
futuro, tudo é vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus » (1 Cor
3, 22-23). A ânsia do cristão é que toda a família humana possa invocar a Deus
como o « Pai nosso ». Juntamente com o Filho unigénito, possam todos os homens
aprender a rezar ao Pai e a pedir-Lhe, com as palavras que o próprio Jesus nos
ensinou, para sabê-Lo santificar vivendo segundo a sua vontade, e depois ter o
pão necessário para cada dia, a compreensão e a generosidade com quem nos
ofendeu, não ser postos à prova além das suas forças e ver-se livres do mal (cf.
Mt 6, 9-13).
No final do
Ano Paulino, apraz-me formular os seguintes votos com palavras do Apóstolo
tiradas da sua Carta aos Romanos: « Que a vossa caridade seja sincera,
aborrecendo o mal e aderindo ao bem.
Amai-vos uns
aos outros com amor fraternal, adiantando-vos em honrar uns aos outros
» (12, 9-10).
Que a Virgem
Maria, proclamada por Paulo VI Mater Ecclesiæ e honrada pelo povo cristão
como Speculum Iustitiæ e Regina Pacis, nos proteja e obtenha, com
a sua intercessão celeste, a força, a esperança e a alegria necessárias para
continuarmos a dedicar-nos com generosidade ao compromisso de realizar o «
desenvolvimento integral do homem todo e de todos os homens ».159
Dado em Roma, junto de São
Pedro, no dia 29 de Junho — Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo — do
ano 2009, quinto do meu Pontificado.
BENEDICTUS PP. XVI
Notas:
1Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 22: AAS 59 (1967), 268;
cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja
no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 69.
2Discurso na Jornada do
Desenvolvimento (23 de Agosto de 1968): AAS 60
(1968), 626-627.
3Cf. João Paulo II,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2002: AAS 94 (2002), 132-140.
4Cf. Conc. Ecum. Vat.
II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes,
26.
5Cf. João XXIII, Carta enc.
Pacem in terris
(11 de Abril de 1963): AAS 55 (1963), 268-270.
6 Cf. n. 16: AAS
59 (1967), 265.
7Cf. ibid., 82:
o.c., 297.
8Ibid.,
42: o.c., 278.
9Ibid.,
20: o.c., 267.
10Cf. Conc. Ecum. Vat.
II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes,
36; Paulo VI, Carta ap. Octogesima adveniens
(14 de Maio de 1971), 4: AAS 63 (1971),
403-404; João Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991),
43: AAS 83 (1991), 847.
11Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 13: AAS 59 (1967),
263-264.
12Cf. Pont. Conselho « Justiça
e Paz », Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n. 76.
13Cf. Bento XVI, Discurso
na Sessão inaugural dos trabalhos da V Conferência Geral do Episcopado
Latino-Americano e das Caraíbas (13 de Maio de 2007): Insegnamenti
III/1 (2007), 854-870.
14Cf. nn. 3-5: AAS 59
(1967), 258-260.
15Cf. João Paulo II, Carta
enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 6-7: AAS
80 (1988), 517-519.
16Cf. Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967) 14: AAS 59 (1967), 264.
17Bento XVI, Carta enc.
Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 18: AAS 98 (2006), 232.
18Ibid.,
6: o.c., 222.
19Cf. Bento XVI, Discurso à
Cúria Romana durante a apresentação de votos natalícios (22 de Dezembro de
2005): Insegnamenti I (2005), 1023-1032.
20Cf. João Paulo II, Carta
enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 3: AAS 80
(1988), 515.
21Cf. ibid., 1:
o.c., 513-514.
22Cf. ibid., 3:
o.c., 515.
23Cf. João Paulo II, Carta
enc. Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), 3: AAS 73 (1981),
583-584.
24Cf. João Paulo II, Carta
enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 3: AAS 83 (1991),
794-796.
25Cf. Carta enc. Populorum
progressio (26 de Março de 1967), 3: AAS 59 (1967), 258.
26Cf. ibid., 34:
o.c., 274.
27Cf. nn. 8-9: AAS 60
(1968), 485-487; Bento XVI, Discurso aos participantes no Congresso
Internacional organizado no 40º aniversário da « Humanae vitae » (10 de Maio
de 2008): Insegnamenti IV/1 (2008), 753-756.
28Cf. Carta enc. Evangelium
vitae (25 de Março de 1995), 93: AAS 87 (1995), 507-508.
29Ibid.,
101: o.c., 516-518.
30N. 29: AAS 68
(1976), 25.
31Ibid.,
31: o.c., 26.
32Cf. João Paulo II, Carta
enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 41: AAS 80
(1988), 570-572.
33Cf. ibid., 41:
o.c., 570-572; Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 5.54:
AAS 83 (1991), 799.859-860.
34N. 15: AAS 59 (1967),
265.
35Cf. ibid., 2: o.c.,
481-482; Leão XIII, Carta enc. Rerum novarum (15 de Maio de 1891):
Leonis XIII P. M. Acta, XI (1892), 97-144; João Paulo II, Carta enc.
Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 8: AAS 80 (1988),
519-520; Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 5: AAS
83 (1991), 799.
36Cf. Carta enc. Populorum
progressio (26 de Março de 1967), 2.13: AAS 59 (1967), 258.263-264.
37Ibid.,
42: o.c., 278.
38Ibid.,
11: o.c., 262; cf. João Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1
de Maio de 1991), 25: AAS 83 (1991), 822-824.
39Carta enc.
Populorum progressio (26 de
Março de 1967), 15: AAS 59 (1967), 265.
40Ibid.,
3: o.c., 258.
41Ibid.,
6: o.c., 260.
42Ibid.,
14: o.c., 264.
43Ibid.,
14: o.c., 264; cf. João Paulo II, Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 53-62: AAS
83 (1991), 859-867; Carta enc. Redemptor hominis (4 de Março de 1979),
13-14: AAS 71 (1979), 282-286.
44Cf. Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 12: AAS 59 (1967),
262-263.
45Conc. Ecum. Vat. II, Const.
past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 22.
46Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 13: AAS 59 (1967),
263-264.
47Cf. Bento XVI, Discurso
aos participantes no IV Congresso Eclesial Nacional da Igreja que está em Itália
(19 de Outubro de 2006): Insegnamenti II/2 (2006), 465-477.
48Cf. Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 16: AAS 59 (1967), 265.
49Ibid.,
16: o.c., 265.
50Bento XVI, Discurso aos
jovens no cais de Barangaroo (17 de Julho de 2008): L'Osservatore Romano
(ed. portuguesa de 19//VII/2008), 4.
51Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 20: AAS 59 (1967), 267.
52Ibid.,
66: o.c., 289-290.
53Ibid.,
21: o.c., 267-268.
54Cf. nn. 3.29.32: o.c.,
258.272.273.
55Cf. Carta enc.
Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 28: AAS 80 (1988),
548-550.
56Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 9: AAS 59 (1967),
261-262.
57Cf. Carta enc.
Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 20: AAS 80 (1988),
536-537.
58Cf. Carta enc. Centesimus
annus (1 de Maio de 1991), 22-29: AAS 83 (1991), 819-830.
59Cf. nn. 23.33: AAS
59 (1967), 268-269.273-274.
60Cf. Leonis XIII P.
M. Acta, XI (1892), 135.
61Conc. Ecum. Vat. II,
Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 63.
62Cf. João Paulo II, Carta
enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 24: AAS 83 (1991),
821-822.
63Cf. João Paulo II, Carta
enc. Veritatis splendor (6 de Agosto de 1993), 33.46.51: AAS 85
(1993), 1160.1169-1171.1174-1175; Discurso à Assembleia Geral das Nações
Unidas na comemoração do cinquentenário de fundação (5 de Outubro de 1995),
3: Insegnamenti XVIII/2 (1995), 732-733.
64Cf. Carta enc. Populorum
progressio (26 de Março de 1967), 47: AAS 59 (1967), 280-281; João
Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987),
42: AAS 80 (1988), 572-574.
65Cf. Bento XVI, Mensagem
por ocasião do Dia Mundial da Alimentação 2007: AAS 99 (2007),
933-935.
66Cf. João Paulo II, Carta
enc. Evangelium vitae (25 de Março de 1995), 18.59.63-64: AAS 87
(1995), 419-421.467-468.472-475.
67Cf. Bento XVI, Mensagem
para o Dia Mundial da Paz 2007, 5: Insegnamenti II/2 (2006), 778.
68Cf. João Paulo II,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2002, 4-7.12-15: AAS 94 (2002),
134-136.138-140; Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2004, 8: AAS
96 (2004), 119; Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2005, 4: AAS 97
(2005), 177-178; Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2006,
9-10: AAS 98 (2006), 60-61; Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2007,
5.14: Insegnamenti II/2 (2006), 778.782-783.
69Cf. João Paulo II,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2002, 6: AAS 94 (2002), 135; Bento
XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2006, 9-10: AAS 98 (2006),
60-61.
70Cf. Bento XVI, Homilia da
Santa Missa no « Islinger Feld » di Regensburg (12 de Setembro de 2006):
Insegnamenti II/2 (2006), 252-256.
71Cf. Bento XVI, Carta enc.
Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 1: AAS 98 (2006), 217-218.
72João Paulo II, Carta enc.
Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 28: AAS 80 (1988),
548-550.
73Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 19: AAS 59 (1967),
266-267.
74Ibid.,
39: o.c., 276-277.
75Ibid.,
75: o.c., 293-294.
76Cf. Bento XVI, Carta enc.
Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 28: AAS 98 (2006),
238-240.
77João Paulo II, Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 59: AAS 83 (1991), 864.
78Cf. Carta enc. Populorum
progressio (26 de Março de 1967), 40.85: AAS 59 (1967), 277.298-299.
79Ibid.,
13: o.c., 263-264.
80Cf. João Paulo II, Carta
enc. Fides et ratio
(14 de Setembro de 1998), 85: AAS 91 (1999), 72-73.
81Cf. ibid., 83:
o.c., 70-71.
82Bento XVI, Discurso na
Universidade de Regensburg (12 de Setembro de 2006): Insegnamenti
II/2 (2006), 265.
83Cf. Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 33: AAS 59 (1967),
273-274.
84Cf. João Paulo II,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2000, 15: AAS 92 (2000), 366.
85Catecismo da Igreja
Católica, 407; cf. João Paulo II, Carta enc.
Centesimus annus (1
de Maio de 1991), 25: AAS 83 (1991), 822-824.
86Cf. n. 17: AAS
99 (2007), 1000.
87Cf. ibid., 23:
o.c., 1004-1005.
88Santo Agostinho expõe, de
maneira detalhada, este ensinamento no diálogo sobre o livre arbítrio (De
libero arbitrio, II, 3, 8s.). Aponta para a existência de um « sentido
interno » dentro da alma humana. Este sentido consiste num acto que se realiza
fora das funções normais da razão, um acto não reflexo e quase instintivo, pelo
qual a razão, ao dar-se conta da sua condição transitória e falível, admite
acima de si mesma a existência de algo de eterno, absolutamente verdadeiro e
certo. O nome, que Santo Agostinho dá a esta verdade interior, umas vezes é Deus
(Confissões X, 24, 35; XII, 25, 35; De libero arbitrio, II, 3, 8,
27), outras e mais frequentemente é Cristo (De magistro 11, 38;
Confissões VII, 18, 24; XI, 2, 4).
89Bento XVI, Carta enc.
Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 3: AAS 98 (2006), 219.
90Cf. n. 49: AAS 59
(1967), 281.
91João Paulo II, Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 28: AAS 83 (1991), 827-828.
92Cf. n. 35: AAS 83
(1991), 836-838.
93Cf. João Paulo II, Carta
enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 38: AAS 80
(1988), 565-566.
94N. 44: AAS 59
(1967), 279.
95Cf. ibid., 24:
o.c., 269.
96Cf. Carta enc. Centesimus
annus (1 de Maio de 1991), 36: AAS 83 (1991), 838-840.
97Cf. Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 24: AAS 59 (1967), 269.
98Cf. João Paulo II, Carta
enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 32: AAS 83 (1991),
832-833; Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de 1967),
25: AAS 59 (1967), 269-270.
99João Paulo II, Carta enc.
Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), 24: AAS 73 (1981),
637-638.
100Ibid.,
15: o.c., 616-618.
101Carta enc. Populorum
progressio (26 de Março de 1967), 27: AAS 59 (1967), 271.
102Cf. Congr. da Doutrina da
Fé, Instr. sobre a liberdade cristã e a libertação Libertatis conscientia
(22 de Março de 1987), 74: AAS 79 (1987), 587.
103Cf. João Paulo II,
Entrevista ao diário católico « La Croix » de 20 de Agosto de 1997.
104João Paulo II, Discurso
à Pontifícia Academia das Ciências Sociais (27 de Abril de 2001):
Insegnamenti XXIV/1 (2001), 800.
105Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 17: AAS 59 (1967),
265-266.
106Cf. João Paulo II,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2003, 5: AAS 95 (2003), 343.
107Cf. ibid., 5:
o.c., 343.
108Cf.
Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2007, 13:
Insegnamenti II/2 (2006), 781-782.
109Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 65: AAS 59 (1967), 289.
110Cf. ibid.,
36-37: o.c., 275-276.
111Cf. ibid., 37:
o.c., 275-276.
112Cf. Conc. Ecum. Vat. II,
Decr. sobre o apostolado dos leigos Apostolicam actuositatem, 11.
113Cf. Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 14: AAS 59 (1967), 264;
João Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 32:
AAS 83 (1991), 832-833.
114Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 77: AAS 59 (1967), 295.
115João Paulo II, Mensagem
para o Dia Mundial da Paz 1990, 6: AAS 82 (1990), 150.
116Heráclito de Éfeso (±
535-475 a.C.), Fragmento 22B124, in H. Diels-W. Kranz, Die Fragmente der
Vorsokratiker (Weidmann, Berlim 61952).
117Cf. Pont. Conselho «
Justiça e Paz », Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nn. 451-487.
118Cf. João Paulo II,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1990, 10: AAS 82 (1990), 152-153.
119Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 65: AAS 59 (1967), 289.
120Bento XVI, Mensagem para
o Dia Mundial da Paz 2008, 7: AAS 100 (2008), 41.
121Cf. Bento XVI, Discurso
aos participantes na Assembleia Geral das Nações Unidas (18 de Abril de
2008): Insegnamenti IV//1 (2008), 618-626.
122Cf. João Paulo II,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1990, 13: AAS 82 (1990), 154-155.
123João Paulo II, Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1967), 36: AAS 83 (1991), 838-840.
124Ibid.,
38: o.c., 840-841; cf. Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz
2007, 8: Insegnamenti II/2 (2006), 779.
125Cf. João Paulo II, Carta
enc. Centesimus annus (1 de Maio de 2009), 41: AAS 83 (1991),
843-845.
126Cf. ibid., 41:
o.c., 843-845.
127Cf. João Paulo II, Carta
enc. Evangelium vitae (25 de Março de 1995), 20: AAS 87 (1995),
422-424.
128Carta enc. Populorum
progressio (26 de Março de 1967), 85: AAS 59 (1967), 298-299.
129Cf. João Paulo II,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1998, 3: AAS 90 (1998), 150;
Discurso aos Membros da Fundação « Centesimus annus » (9 de Maio de
1998), 2: Insegnamenti XXI/1 (1998), 873-874; Discurso às Autoridades
Civis e Políticas e ao Corpo Diplomático durante o encontro no « Wiener Hofburg
» (20 de Junho de 1998), 8: Insegnamenti XXI/1 (1998), 1435-1436;
Mensagem ao Reitor Magnífico da Universidade Católica « Sacro Cuore » por
ocasião do Dia Anual desta Instituição (5 de Maio de 2000), 6:
Insegnamenti XXIII/1 (2000), 759-760.
130Segundo São Tomás, « ratio
partis contrariatur rationi personae », in III Sent. d. 5, 3, 2; e ainda
« homo non ordinatur ad communitatem politicam secundum se totum et secundum
omnia sua », in Summa Theologiae I-II, q. 21, a. 4, ad 3um.
131Cf. Conc. Ecum. Vat.
II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 1.
132Cf. João Paulo II,
Discurso aos participantes na Sessão Pública das Academias Pontifícias de
Teologia e de São Tomás de Aquino (8 de Novembro de 2001), 3:
Insegnamenti XXIX/2 (2001), 676-677.
133Cf. Congr. da Doutrina da
Fé, Decl. sobre a unicidade e universalidade salvífica de Jesus Cristo e da
Igreja Dominus Iesus (6 de Agosto 2000), 22: AAS 92 (2000),
763-764; Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e
comportamento dos católicos na vida política (24 de Novembro de 2002) 8:
L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 25/I/2005), 11.
134Bento XVI, Carta enc.
Spe salvi (30 de Novembro de 2007), 31: AAS 99 (2007), 1010;
Discurso aos participantes no IV Congresso Eclesial Nacional da Igreja que está
em Itália (19 de Outubro de 2006): Insegnamenti II/2 (2006), 465-477.
135João Paulo II, Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 5: AAS 83 (1991), 798-800; cf.
Bento XVI, Discurso aos participantes no IV Congresso Eclesial Nacional da
Igreja que está em Itália (19 de Outubro de 2006): Insegnamenti II/2
(2006), 471.
136N. 12.
137Cf. Pio XI, Carta enc.
Quadragesimo anno (15 de Maio de 1931): AAS 23 (1931), 203; João
Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 48: AAS
83 (1991), 852-854; Catecismo da Igreja Católica, n. 1883.
138Cf. João XXIII, Carta enc.
Pacem in terris
(11 de Abril de 1963): AAS 55 (1963), 274.
139Cf. Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 10.41: AAS 59 (1967),
262.277-278.
140Cf. Bento XVI, Discurso
aos membros da Comissão Teológica Internacional (5 de Outubro de 2007):
Insegnamenti III/2 (2007), 418-421; Discurso aos participantes no
Congresso internacional sobre « Lei Moral Natural » promovido pelo Pontifícia
Universidade Lateranense (12 de Fevereiro de 2007): Insegnamenti
III/1 (2007), 209-212.
141Cf. Bento XVI, Discurso
aos membros da Conferência Episcopal da Tailândia em « Visita ad Limina »
(16 de Maio de 2008): Insegnamenti IV/1 (2008), 798-801.
142Cf. Pont. Conselho da
Pastoral para os Migrantes e os Itinerantes, Instr. Erga migrantes caritas
Christi (3 de Maio de 2004): AAS 96 (2004), 762-822.
143João Paulo II, Carta enc.
Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), 8: AAS 73 (1981), 594-598.
144Discurso no final da
Concelebração Eucarística por ocasião do Jubileu dos Trabalhadores (1 de Maio de
2000): Insegnamenti XXIII/1 (2000), 720.
145Cf. João Paulo II, Carta
enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 36: AAS 83 (1991),
838-840.
146Cf. Bento XVI, Discurso
aos participantes na Assembleia Geral das Nações Unidas (18 de Abril de
2008): Insegnamenti IV/1 (2008), 618-626.
147Cf. João XXIII, Carta enc.
Pacem in terris
(11 de Abril de 1963): AAS 55 (1963), 293; Pont.
Conselho « Justiça e Paz », Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n.
441.
148Cf. Conc. Ecum. Vat.
II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes,
82.
149Cf. João Paulo II, Carta
enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 43: AAS 80
(1988), 574-575.
150Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 41: AAS 59 (1967),
277-278; cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a
Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 57.
151Cf. João Paulo II, Carta
enc. Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), 5: AAS 73 (1981),
586-589.
152Cf. Paulo VI, Carta ap.
Octogesima adveniens (14 de Maio de 1971), 29: AAS 63 (1971), 420.
153Cf. Bento XVI, Discurso
aos participantes no IV Congresso Eclesial Nacional da Igreja que está em Itália
(19 de Outubro de 2006): Insegnamenti II/2 (2006), 465-477; Homilia da
Santa Missa no « Islinger Feld » di Regensburg (12 de Setembro de 2006):
Insegnamenti II/2 (2006), 252-256.
154Cf. Congr. da Doutrina da
Fé, Instr. sobre algumas questões de bioética Dignitas personae (8 de
Setembro de 2008): AAS 100 (2008), 858-887.
155Cf. Carta enc. Populorum
progressio (26 de Março de 1967), 3: AAS 59 (1967), 258.
156Conc. Ecum. Vat. II,
Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 14.
157Cf. n. 42: AAS 59
(1967), 278.
158Cf. Bento XVI, Carta enc.
Spe salvi (30 de Novembro de 2007), 35: AAS 99 (2007), 1013-1014.
159Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 42: AAS 59 (1967), 278.
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